quinta-feira, 24 de março de 2022

O Adeus dos Vivos


O Adeus dos Vivos

Ouço as vozes, os gritos, os sons do silêncio
enquanto tuas últimas palavras ecoam,
vão e vêm.
Porém ninguém mais as ouve...
Chocam-se às rochosas paredes
que se ergueram em meu ser,
e soam outra vez, e outra vez, e outra vez...
Mas rochas se abalam, e tremem,
e fendem-se, e se despedaçam.
Disseste-me adeus, o pior adeus:
o adeus dos vivos,
que fere como a morte;
e que zumbifica aquele que,
por ele, queda ferido...
Contudo, caminho vivo,
e morto, sorrindo o choro.
E o que resta da alma?
Afora a lembrança doce de outrora, e agora
amarga, descendo da boca às vísceras...
E não há mais uma fagulha de esperança
entre os vivos para se agarrar,
eis que resoluto, dilacerado pela
de-cisão, que não foi só inciso,
mas também contuso, e confuso...
E fica a lembrança dispersa da esperança;
e a distância pavimenta as veredas
da solidão, que te havia confessado...
Contudo, caminho vivo,
e morto, sorrindo o choro.
E se há algum conforto,
é no fingir o fingimento dos poetas,
tal qual profetizado pelo Poeta Fingidor...
Então finjo
a dor que deveras sinto...
e caminho vivo,
e morto, sorrindo o choro.


… do poeta...

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A Rainha e o Plebeu


A Rainha e o Plebeu

Mil vidas que outrora vi antes de conhecer
O olhar colhido que foi junto aos bosques de ébanos
E eis-me volvido à infância que será enquanto éramos
No retorno às lembranças de um entardecer

Contemplava a nobreza a adornar o teu ser
Singela a beleza que impelia-me ao êxodo
Teus palácios com cedros erguidos do Líbano
São o refúgio daquele que em ti quis nascer

E um plebeu que tão pouco tem, à realeza
Oferece a virtude que brota de si
E assim doa suas mãos, braços, peito e regaço

E lançado ao abismo da vil incerteza
Já cativo, ferido e rendido por ti
Agarrou-se à esperança de em ti ter o afago.

Gama, 23 de junho de 2021.
 



segunda-feira, 24 de maio de 2021

Pincelado

 


Pincelado

Ah, o teu sorriso! No teu sorriso
é que eu habito; vivo...
Ah, a tua boca! A tua boca
que a mim se doa; ressoa...
Ah, o teu olhar! O teu olhar
me arranca o ar; o mar...
Ah, as tuas mãos! Em tuas mãos
nada é vão; sãos...
Ah, a tua voz! A tua voz
expulsa-me o algoz; foz...
Ah, os teus pés! Junto aos teus pés
brotam aloés; lés...
Ah, o teu busto! É o teu busto
o meu refúgio; augusto...
Ah, os teus cabelos! São teus cabelos
tais quais novelos; selo...
Ah, as tuas pernas! As tuas pernas
firmam sendas eternas; ternas...
Ah, as tuas costas! São tuas costas
de Elísio as rotas; arrosta...
Ah, a tua fronte! Em tua fronte
nascem as fontes; fronde...
Ah, o teu ventre! Que em teu ventre
eu me assente; sempre...
Ah, o teu hálito! Em teu doce hálito
queda o lar cálido; ádito...
Ah, o teu cheiro! É o teu cheiro
dos sumo aromas o celeiro; veiro...
Ah, a tua beleza! Em tua beleza
firma a destreza; alteza...
E me perco ao descrever-te
minha musa, gueixa e leide...
Sei que és graça em seu sentido
mais profundo; e eu seu amigo
moribundo, que sou,
ferido de amor!

Gama, 24 de maio de 2021.

sábado, 11 de julho de 2020

Noite e Dia




NOITE E DIA

Rompem-se eras, sufocado na agonia
De te amar; vagara, só, por tais veredas
Absorvido e a desejar tua pele-seda,
Donde a fina primazia em ti teria.

Nos enlaces das estrelas – Três Marias -
Com teu brilho a ofuscar-me, tua beleza
Arde em mim, enquanto angústia e incerteza,
Pois querer-te é mais que ser: é noite, é dia!

São as sombras um refúgio ao andarilho
E a penumbra é o abrigo de quem ama,
Abraçado ao toque álgido: o vento-norte.

E o anseio pela aurora é sina e trilho:
É o romper de um sol que o frio não abranda,
Já que o teu calor é doce vida e morte.

Jordanny.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O TEMPO DAS MÁSCARAS


O TEMPO DAS MÁSCARAS

O Medo tomou o assento mais importante entre os homens. Não hoje, mas desde sempre. Entronizado, conquistou para si súditos em todas as eras que esteve presente, aquele que esteve presente em todas as eras. Seus palácios, erguidos sob o fundamento da ignorância, tornaram-se os mais visitados, amados e habitados; assombrosos, mas venerados; lúgubres, mas instrumentalizados com objetos próprios para os algozes da alma; perversos, mas úteis. Impressiona-me como uma pandemia ergue, como numa parábola da própria vida, as condições mais profundas da natureza humana que ainda não despertou para a verdade; que ainda está encarcerada nas masmorras do pavor, sem qualquer fagulha de luz para se nortear.

Decretos em todo o mundo determinam o uso obrigatório de máscaras. Não falo de decretos recentes, contudo dos mais imponentes, publicados ainda no tempo onde a história não mais alcança; onde a memória se dissipou com uma névoa. Falo dos decretos oficializados pelo moralismo torpe; pelo modismo encantador; pela vaidade velada; pelo egoísmo maquiado. “Coloquem suas máscaras! É determinante que não saiam de casa sem essas! A pena de ser visto sem máscara é o sepultamento do ser; é a prisão do viver! Proteja-se a si mesmo!”

Sinceridade... Essa palavra encontra uma origem validada por eruditos, e outras denominadas “etimologias populares”, manifesta por contos que a tentam explicar. Entretanto, nas duas formas que se apresenta, validada ou não, não deixa de trazer uma riqueza fantástica e uma reflexão sublime. A mais aceita, nos informa que o termo se origina do latim sincerus, que tem por significado uma “planta que é de crescimento único, sem enxertos ou misturas”. Já entre o credo popular, dentre tantas histórias contadas, a palavra quer dizer “sem cera”. Conforme alguns dizem, na Idade Média as pessoas aproveitavam o carnaval para praticarem as mais intensas luxúrias, indo a bailes que tinham por finalidade saciar o desejo lascivo de seus participantes, que se valiam de máscaras confeccionadas à base de cera. Essas tinham por objetivo esconder suas identidades. Desse modo, cresceu-se o entendimento de que uma pessoa sem máscara, era uma pessoa sincera, sem cera.

Sabemos que o conto popular é tantas vezes criado como subterfúgio, mas a sua criatividade alcança um valor peculiar, e nos traz uma mensagem profunda: num mundo vil, perdido, lascivo, é um desafio inimaginável apresentar-se sem máscaras. Nesse mundo, a sinceridade é perigosa; repugnante. No reino do Medo, a verdade é o crime dos crimes.

Afora as conjecturas, o fato é que o existir, num mundo que se alimenta das aparências, depende, cada vez mais, de máscaras. É a proteção mais básica. É a ferramenta de “liberdade” dos que são subservientes ao senhor Medo! É a forma única de tentar se aproximar de outem, rompendo o distanciamento que o vírus da maldade exige de cada um. É a construção rasa de amizades e relacionamentos melindrosos, ilusórios, virtuais, conquanto numerosos.

Há alguns, porém, que têm uma dificuldade enorme em simplesmente existir: precisam, mais do que tudo, VIVER! Existir é o que se faz qualquer um que se rendeu ao senhor Medo; que se deixou ser marcado como escravo e servo do desespero, da ansiedade, do pânico. Mas para aqueles para os quais não basta existir, e que rompem os grilhões impostos pelo Medo, a Vida lhes exige que, antes de tudo, suas máscaras sejam arrancadas. Seus rostos ficam, então, desnudados diante do risco que a vida lhes impõe como condição do que ela é em si mesma. Afinal a vida é o que é: é o risco da perda; é a certeza da dor; é a sina de sorrir enquanto se é afligido; é a entrega completa ao amor que tudo sofre, tudo crê e tudo suporta; é a coragem para apresentar a própria feiura, sem pudor, e as marcas que foram sendo impingidas no caminho de se viver; é até mesmo o mergulho na possibilidade da traição, enquanto se carrega a decisão de perdoar sempre!

Poucos têm coragem de romper o isolamento sem máscaras. Poucos têm coragem de apresentar a face marcada sem o medo de se contagiar mais uma vez pelo pavor. Poucos são os que caminham pelas veredas da liberdade, que são pavimentadas com a Verdade. Para esses poucos, a Vida é manifesta! E esses poucos, que conhecem o sabor inigualável de realmente viver, nunca mais retornam à servidão do Medo...

Espero muito que você, para além de existir, arranque a máscara e, com coragem, simplesmente, e sobretudo, VIVA!


Jordanny.

domingo, 19 de abril de 2020

Interestellar: O Tempo e o Amor




INTERESTELLAR: O TEMPO E O AMOR

O tempo traz em si, ou consigo, um fascínio bem peculiar: é assombroso, quando não maravilhoso; é perceptivelmente forte e com sua força nos humilha; é inescapável, ainda que dele tentemos fugir; é pacificador, enquanto guerreamos com ele, até nos rendermos à sua invencibilidade; é sutil, mas de um valor inestimável; é silente, mas estrondoso; sabe curar enquanto fere; sabe ferir enquanto cura; é feroz com os que não o aceitam, e é dócil com os que o reverenciam; é o ourives da saudade e o artesão do saber...

Há alguns anos assisti a um filme que alcançou sucesso incontestável dada à sua história envolvente, apresentada de modo inteligente, sensível, poético, com uma trilha sonora maravilhosa, trazendo em seu bojo teorias de relevância científica, e que abordava o tempo de modo profundo, cativante. A maioria de nós se viu encantado por Interestellar de Christopher Nolan. Nesse filme, o que mais me chamou a atenção foi a existência de dois personagens sutis, fortes, envolventes e assustadores: o tempo e o amor! Sim, a história corre em seus trilhos e os eleva, e os releva!

Quem já assistiu ao filme se recorda do fatídico momento em que, tendo aceitado uma missão que acreditara ter por objetivo salvar sua família e, consequentemente, toda a raça humana, Cooper vai ao quarto de sua filhinha, Murphy, para se despedir e lhe presenteia com um relógio. Naquele diálogo, sabendo de tudo que envolve a dinâmica temporal e sua relatividade, tenta de alguma forma amenizar a situação, dizendo à sua filha que, quando ele estivesse lançado ao cosmos, à deriva na imensidão do espaço rumo ao desconhecido, agarrado a uma fagulha de esperança, o tempo mudaria para ambos. Assim, quem sabe, quando ele retornasse de sua jornada, poderia ter a mesma idade de sua filha. A reação de Murphy, aos 13 anos, não poderia ser diferente: ante a iminente separação de seu pai, não aceitou aquilo e lançou o presente [o relógio] contra a parede, num ato de desespero, por não poder impedir que seu pai fosse.

A história se alonga. O roteiro se desenvolve. As consequências relativísticas aliadas ao tempo são evidenciadas quando alguns membros da tripulação da nave Endurance precisam pousar num planeta que fica próximo a Gargântua, um buraco negro. Ali, poucas horas para Cooper e Amélia Brand resultam em mais de duas décadas relativamente ao tempo que passou na Terra. De volta à Endurance, mais de 23 anos havia passado. Coincidentemente, após esse tempo, Murphy completa a idade que seu pai, Cooper, tinha quando saiu da Terra, e lhe remete uma mensagem lembrando de sua promessa de que retornaria.

Por conseguinte, momentos dramáticos surgem à frente - os quais deixarei para que os leitores se permitam conhecer assistindo ao filme -, que forçam Cooper, em uma tentativa desesperada de salvar a missão, bem como Amélia Brand, a última sobrevivente da tripulação junto com ele. Assim, para conseguir mandar Amélia para o planeta de Edmund, um tripulante de uma missão anterior denominada Lázaro, ele precisa passar junto ao horizonte de eventos de Gargântua, ocasião em que, deixado para trás, sacrifica-se para que sua companheira de viagem chegue ao seu destino.

Solto da nave Endurance, em um módulo de voo menor, Cooper passa a ser atraído de modo inescapável por Gargântua que, à semelhança de Cronos – o deus do tempo -, é um devorador voraz. Engolido por Gargântua, Cooper é arremessado em um hipercubo, que é uma conversão de uma visão pentadimensional para um ser que só consegue acessar o mundo tridimensional. Aquela simulação de cinco dimensões remete Cooper para o quarto de sua filha, onde antes ele lhe tinha dado o relógio, e onde muitos outros fatos essenciais para o entendimento do filme acontecem. 

Cooper então entende que a única forma para se criar aquele ambiente pentadimensional, que lhe permitiria romper o espaço tempo, voltando no tempo em que sua filha ainda era criança, era por meio do amor que lhes envolvia. O amor tinha sido a chave! Sem essa ligação de amor; sem esse laço de afeto, não haveria possibilidade para que os seres – provavelmente humanos – mais desenvolvidos pudessem recriar o portal pentadimensional. Agora, graças ao laço de amor entre pai e filha, Cooper poderia mandar uma mensagem a Murphy. Entende ainda que, para que sua filha e o mundo fossem salvos, era inevitavelmente necessário que ele enviasse a si mesmo para uma aventura que lhe furtaria de ver a história de seus filhos de perto; que lhe furtaria o mais precioso dos bens: o tempo! Nesse momento fica claro quais são os dois personagens principais da história: o tempo e o amor; aquele, porém, submetido a este... Então, valendo-se dos dados que haviam sido coletados dentro de Gargântua, e que decifravam a singularidade, Cooper consegue transferi-los, ironicamente, aos ponteiros de segundos de um instrumento criado com a finalidade de marcar o tempo: um relógio. E Cooper sabia que sua filha, um dia, pegaria de volta aquele presente, uma vez que ele lho tinha dado. Murphy, por sua vez, já adulta, volta ao quarto de sua infância, ao profundo de suas lembranças, à origem de seus fantasmas, e resgata aquele pequeno objeto, percebendo, assim, que seu pai havia lhe mandado uma mensagem, e que essa mensagem era a solução da equação que salvaria toda a humanidade!

O espectador pode ficar curioso quanto à fórmula que rompe a poderosa força da gravidade, que encurva o espaço-tempo, que permite a produção de portais que ligam galáxias distanciadas por milhões de anos luz. Porém, de modo sublime, o autor do filme consegue deixar claro que a fórmula é o amor! O amor rompe todas essas barreiras... Transcende tempo, espaço, eras, cosmos, universos, dimensões, mundos! O amor é a mensagem, é a fórmula, é a solução, é a equação, é o equilíbrio, é o fundamento que rompe a lógica, que humilha a ciência e que, mais do que tudo, concilia-se enquanto vence e submete o tempo a si.

Tempo, relógio, poesia, família, amor: temas que me encantam; temas que me atraem! Espero que você assista ao filme, caso não tenha assistido, e se encante também pelo roteiro, pela história, pela trilha sonora, pelo mistério, pela ciência, pelo tempo e, sobretudo, pela mensagem de amor que entrelaça e transcende tudo isso...

Muito obrigado por ler até aqui,

Jordanny.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Vida achada na Morte


A VIDA ACHADA NA MORTE

A única vida possível de se experimentar decorre da inevitável morte. Paulo entendeu isso com uma sensibilidade poética e, ao mesmo tempo, com uma precisão empírica, profunda, inescapável. É por isso que ele afirma: "Já estou crucificado com Cristo e agora não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim". 

A vida que vive sob o temor da morte não é vida. Por isso, uma vez que a morte não é mais um problema, a vida encontra a intensidade mais plena, a força mais intensa, o caminho absoluto! Paulo, agora consciente de que a morte já não lhe era um problema, posto que jazia crucificado, vivia o que de fato a Vida lhe poderia proporcionar: viveu a completude de seu ministério, mergulhado até as profundezas do propósito de sua vocação. Era a experiência da liberdade plena, ainda que em cadeias. Era o sabor inefável da Graça que, em alguns momentos, concebia-se na ilicitude de expressar com palavras. Era a sensação de arrebatar-se até o terceiro céu, já não importando se no corpo ou fora do corpo, para contemplar o indizível e tocar o intangível!

E sua liberdade tornou-se escândalo! Sim, como a Cruz é escândalo para os religiosos, a liberdade de Paulo, preso à Cruz, tornou-o escândalo, junto com o Seu Senhor! Porém, não só escândalo: sua liberdade era também loucura, era irrazoável e irracional para os sábios.

Sua vida foi plena: alegrou-se; chorou; sorriu; sofreu; fartou-se; passou necessidades; navegou; naufragou; escalou montes; visitou vales; teceu tendas; padeceu fome; fez amigos; viu-se só. Entretanto, acima de tudo isso e, em tudo isso, amou!!! Amou com uma força avassaladora! Amou viceralmente ao Seu Senhor e aos filhos que gerou durante toda a sua existência, no seu celibato. 

Paulo é o paradoxo do morto que, sobretudo, vive como nenhum de nós viveu e, provavelmente, nunca viverá: viveu sem o medo, visto que contagiado estava pelo Amor que lança fora todo o medo; o Amor mais forte que a morte!

Viver sem ter a morte como um problema é o mais libertador dos caminhos. Na Verdade, é o único Caminho para quem deseja experienciar a plenitude da Vida! Para que possamos Viver devemos morrer. Aquele que perder a sua vida, ganha-la-á!

NEle que é a Vida manifesta na Cruz,

Jordanny.