quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Aforismos e poesias: Lúcidos devaneios - Parte 22




Nicho da dor

Calabouço de paredes frias
e de umidade que avança em mofo;
sobre as úlceras rastejam as larvas
asquerosas, companheiras únicas.
Ao som que vem das sombras
carregado de arrepios e temores,
a negra nuvem baixa impiedosa;
logo salta aos olhos expressão de angústia,
medo e dor que cada vez mais perto
cobrem porquanto revelam tão vil realidade.
Nesse ardor de penúria e lamentos,
sempre opta pela solidão,
que é amiga e que repele e atrai aos desalentos;
que é cura e vírus; antídoto e veneno.
Tudo para que não sejas aqui reclusa,
já que o sofrer teu inda é a mais vil sensação.
Quais memórias de outrora,
donde nas fontes da esperança se nadava...
Mas agora a sequidão do ser lambeu suas águas;
e donde se bebia em abundância
hoje os lábios se lançam às poças, ao chão:
Chão rachado de cancros e cicatrizes.
Ali não há sombras de alívio;
há somente as do horror.
O aroma nostálgico das recordações
faz retorcer de azia,
e corrói ao âmago das entranhas que se fazem ser...
E ao horizonte que se põe além,
não se veem sonhos nem desejos sãos,
a não ser a sepultura,
que é doçura em taças amargas...

Jordanny Silva

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 6




Capítulo 5 – As ilusões e os embaraços da vida.

            Após trazer uma definição exata do conceito de fé, consignando exemplos inesquecíveis num rol sublime de heróis da fé, sabiamente nos advertiu o escritor aos Hebreus:

PORTANTO nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus. (Hb 12.1-2) [Ênfase adicionada]

            O propósito de se tratar, num mesmo capítulo, das ilusões e dos embaraços da vida, respalda-se no fato de que todo tipo de entrave, embaraço, frustração ou mesmo, desejo vão que atinge os nossos corações, têm como escopo algum tipo de ilusão. A ilusão é, por natureza, viciosa. Ela traz consigo a obcecação. E o que é a obcecação? É uma visão turva, dissonante da verdade. O obcecado é aquele indivíduo que está rendido à cegueira. Ele acredita que pode ver, mas está cego. No livro de Apocalipse, a carta endereçada à igreja de Laodiceia aponta para esse problema:

Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; (Ap 3.17)

            A obcecação, a nível espiritual, acontece quando não conseguimos mais enxergar o que tem valor espiritual, e passamos a nos firmar no que é passageiro. O cristão é convidado a ser um visionário. Isso mesmo! A nossa visão não está condicionada aos limites dessa existência horizontal; desse mundo simplesmente palpável. Qualquer manifestação de fé que supervaloriza as questões materiais é falha e representa uma forma de obcecação.

            Veja que a igreja de Laodiceia assim se afirmava: “Eu sou riquíssima! Estou cercada de prosperidade! A minha teologia é cheia do glamour materialista! Sou reconhecida pela grandeza dos meus templos e pelas contas bancárias de meus membros!” A resposta a essa visão aproximada da teologia da prosperidade foi a seguinte: “Você na verdade está privada da autêntica Graça de nosso Senhor Jesus. Isso porque a sua miséria se expressa na própria natureza daquilo em que se fundamenta a sua fé e a sua confiança, que são as riquezas perecíveis dessa vida. Assim, você, na verdade, experimenta uma pobreza interior ímpar, por conta da soberba de suas palavras. Está cega, limitada e fadada à fronteira da diminuta e passageira glória manifesta nessa temporalidade vã!”.

            Uma vida um tanto confortável ao padrão humano, pode ser uma vida de extrema miséria espiritual. Por esse motivo há tantos cristãos que não estão preparados para o momento de dor. Qualquer sofrimento que a vida lhe impinge já é suficiente para colocar em cheque a sua fé, fazendo que duvidem do próprio Deus. A consequência é uma escancarada impiedade e incredulidade, mesmo diante de sinais fantásticos da presença de Deus.

            E como esses crentes materialistas normalmente respondem ao momento de tribulação, ao deserto que precisam enfrentar? Muitos têm respondido com a apostasia, com o abandono da fé.

            Entretanto, qual seria o segredo para ter uma fé genuína e inabalável? O texto que introduz este capítulo nos informa: Deixar os embaraços e o pecado e olhar para Jesus, Autor e Consumador da fé. Isso parece ser simples, mas muitos não entendem o que significa olhar para Jesus. O que se tem visto na atualidade é que muitos não têm olhado para o Cristo verdadeiro; antes têm olhado para um arquétipo baseado nas especificidades desse mundo perdido; ou mesmo para aquilo que a religião pinta como sendo o Cristo, e, assim, as expectativas são facilmente frustradas. Nisso se baseia a grande ilusão.

            A grande verdade é que, quando um Cristo falso é apresentado ao coração humano, automaticamente, a fé daquela pessoa não passa de uma falácia; de um engano terrível. Contudo, quando o verdadeiro Cristo é apresentado e recebido na vida de alguém, a fé aceita se faz firme e floresce mesmo no mais inóspito deserto. Porém, qual é o Cristo verdadeiro?

O verdadeiro Cristo.

Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus. (Hb 12.2)

            A primeira característica de Jesus descrita pelo escritor aos Hebreus nos informa que Ele é o Autor e Consumador da fé. Isso revela a Sua soberania, inclusive, em relação ao fato de que uma pessoa só alcança a confiança nEle por meio de Sua vontade. É Ele que nos escolhe e não o contrário (Jo 15.16). É Ele que nos ama antes, para que assim nós O amemos (1Jo 4.19). Dessa forma, é Cristo que produz e dá início ao caminho de fé traçado pelo coração humano e, também, é quem o conduz ao fim deste glorioso caminho (Fp 1.6).

            E por onde esse caminho de fé passa? Esse não será diferente do caminho de nosso Mestre. Esse caminho passa pela alegria da perfeita, agradável e boa vontade de Deus (Rm 12.2) que nos apresenta a cruz como escolha, anseio e necessidade para que se alcance a vida eterna (Lc 9.23). A cruz e as provações precisam ser motivo de grande alegria para cristão.

            Mas o verdadeiro Cristo não foi derrotado pela Cruz. Pelo contrário, Ele alcançou vitória por meio da Cruz e demonstra isso plenamente no fato de Sua ressurreição. A ressurreição deve ser um dos fundamentos da fé cristã, pois sem esta toda a nossa fé se faz vã (1Co 15.14). E para a Sua glória, Ele está assentado à destra do Trono de Deus. Glória a Deus!

            Olhe para Jesus consciente de que a cruz é um instrumento de glória na vida de todos aqueles que O amam, mas também consciente de que Ele é soberano e está assentado à direita de nosso amado Deus. Tenha convicção que Ele, que deu início à nossa fé, é fiel para completar a obra e consumá-la em nossas vidas! Glória ao nome de Jesus!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Aforismos e poesias: Lúcidos devaneios - Parte 21



De: Vida
Para: Doxo

Se o Meu querer fosse o teu
e o teu fosse o Meu querer,
seria fácil, a ti, recitar o inexprimível.
Mas te divides em dois, dez, cem,
donde quando ou como ou quanto é maioria.
E numa balança medes e negocias,
mas na avença sempre perdes.
E se decides ao lucro, na consciência lutas ante o luto.
E novamente tornas a desejar-me tanto e nada,
pois me queres tanto e quanto e até não quando;
e na medida de um vazio tão pesado,
(ao vento inalas um frescor tão sufocante),
e ao calor que traz a ti gélido arrepio,
não vês nada além até fechares os olhos.
Se a brisa soprasse versos,
colhê-los-iam aqueles que se fizessem sensíveis.
Mas a linguagem eólia
pouco e nada vos é compreendida...
Então resta o choro de quem não sabe
e resta a angústia de quem espera
e resta a dor de quem crê amar.
De anseios faz-se o castelo de cartas:
Tão frágil que mal suporta a respiração
de um sussurro de amor...
Quão vãos são os desejos
dispersos nas areias do tempo:
Nada dizem conquanto gritem alto.
São maquinações de uma existência
que se vê submersa nas águas da soberba,
sem fôlego, afogada em amarga ilusão;
ilusão essa que mente quanto ao que se vê e crê
acerca de ti e do mundo e de Mim...
Ah, se pudesses ver que o adiante pode estar atrás
e se entendesses que o além se faz daí, onde estás...
O que esperas, espere em Mim
e o que desejas, deseje em Mim
e o que fizeres, faça em Mim...
Só assim o ar da paz se achegará
ao teu tempestuoso ser.

Jordanny Silva

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 5



Capítulo 4 – A questão do orgulho e do egocentrismo.

            O primeiro relato da manifestação de orgulho que temos na Palavra está em Gênesis e se refere à Queda do homem. Há o famoso diálogo entre a mulher e a serpente e, quando é cogitada a possibilidade de Eva ser “como Deus” (Gn 3.5), aquela árvore se torna boa para se comer, e seu fruto se torna agradável e desejável. A consequência é que a mulher, após comer do fruto proibido, oferece ao seu marido, que também o experimenta (Gn 3.6). Paulo, ao escrever a Timóteo, afirma que Adão não foi enganado quando participou daquele manjar amaldiçoado (1Tm 2.14). Quando, porém, inquirido por Deus daquele lastimável evento histórico, o homem aponta a responsabilidade para Deus, que deu a ele a mulher e esta, por sua vez, culpa a serpente.

            Fica, pois, evidente que a raiz do orgulho, que caminha para a rebelião contra Deus, já existia na serpente antes de o homem ter experimentado daquela árvore. Isaías e Ezequiel nos trazem revelação acerca da Queda de Satanás, a antiga serpente:

Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. (Ez 28.12-15)
Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E, contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo. (Is 14.12-15) [Ênfases adicionadas]

            Uma leitura atenta a todos os textos citados acima revela um único ponto em comum: o desejo de ser igual a Deus. Essa é a raiz do orgulho: o desejo de se tornar um ser autônomo (auto = próprio; nomia = regra; ou seja, um ser guiado pelas suas próprias leis), independente de Deus.

            A partir da Queda, o homem passou a desejar essa independência, retirando Deus do centro de sua vida. Inegavelmente, o homem esvaziou-se de Deus, perdeu a Sua extraordinária semelhança. Por isso, partilhamos todos nós, uma realidade indiscutível: Toda criança, jovem, adulto ou velho guardam dentro de si as raízes do orgulho. Quando Deus deixou de figurar como o centro do interior humano, outras coisas, necessariamente, passaram a preencher esse lugar.

            Vimos anteriormente que o ser é dependente do ter. Vimos também que Deus é a peça exata que se encaixa na lacuna infinita de nosso interior; Ele é o Ter que tanto precisamos, ainda que não O desejemos. Contudo, o que podemos compreender é que o egocentrismo gera a mais terrível das confusões, pois transformamos o nosso ser no que nós temos de mais valioso. O nosso ser se torna o nosso ter. Quando nos tornamos o nosso maior tesouro, automaticamente, tudo que está a nossa volta se manifesta inferior a nós mesmos.

            Tudo isso adoece o ser humano. Não poucas vezes vemos cristãos exclamando: “Fulano não está à minha altura!”. Outros pensam: “Essa pessoa não merece nem a minha compaixão”. Há alguns dias caminhava num shopping com minha filha e com minha sobrinha, ambas ainda crianças, e percebia o grau de egocentrismo manifesto na multidão. Muitos passavam por aquelas duas crianças sem qualquer tipo de respeito, sem mesmo, sequer, baixar a cabeça para olhá-las. Se não fosse a minha companhia com todo o meu cuidado, elas praticamente seriam pisoteadas.

            Dentro da igreja temos um grande número de pessoas tão cheias de si, que não enxergam as necessidades do irmãozinho ou da irmãzinha ao lado. Há tantas reclamações de que não recebem visitas; mas nunca os vemos visitando. Há murmúrios de muitos por falta de reconhecimento pessoal por parte da liderança, mas poucos são os que reconhecem o quão é importante aquele irmão humilde que se assenta lá atrás. Julgam sempre fazer melhor do que os outros: “Eu dirigiria o culto melhor do que aquele irmão”; “Eu pregaria melhor do que aquele outro”; “Eu tenho uma voz mais bonita do que aquela irmã que canta no ministério louvor”; “Eu oraria com mais fervor, e a igreja iria sentir o poder de Deus”; “Eu não suporto aquele fulaninho”. Em resumo, são tantos eu, eu e eu, que já não há espaço para Deus nesses corações inchados.

            João Batista foi considerado o mais peculiar e o maior de todos dos homens pelo Mestre Jesus (Mt 11.11). Contudo, este mesmo João afirmou acerca de si mesmo:

“É necessário que Ele [Cristo] cresça e que diminua.” (Jo 3.30)

            Nessa atitude, fica evidenciado o segredo de sua inegável piedade. João, por exaltar a glória de Cristo e por conhecê-lo, mesmo antes de tê-lo visto, compreendeu o seu lugar perante Deus: o lugar de humilhação. Ali está o remédio que nos cura de nós mesmos.

Medicando e tratando o orgulho: o lugar de humilhação.

            A natureza do orgulho deve ser tratada. Em Deus há excelsa glória, mas nunca houve orgulho. Ele nos prova isso por meio de Seu filho:

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o SENHOR, para glória de Deus Pai. (Fp 2.5-11) [Ênfases adicionadas]

            Como Deus pode ser humilde e, ao mesmo tempo, rodeado de glória? A resposta é simples: a Sua Glória se manifesta em tudo o que Ele é, e a humildade é um de Seus extraordinários atributos. Por isso, nosso amado Mestre fala aos nossos corações:

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. (Mt 11.29)

            Aprender de Cristo é crescer em Cristo (Os 6.3; 2Pd 3.18). Crescer em Cristo é galgar em direção à Sua estatura:

Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4.13)

            O caminho para se alcançar a estatura de Cristo é, justamente, a humilhação. Crescemos nEle, enquanto diminuímos de nós mesmos. Nesse caminho há muitos desafios e encontraremos, como regra, a provação:

Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes. (Tg 1.2-4)

            A provação nos conduz à humildade e ao consequente aperfeiçoamento do homem interior, que é sempre renovado (2Co 4.16). No caminho da humildade, entendemos que a nossa glória pessoal deve ser ofuscada pela Glória de Cristo.

            A cura do orgulho se dá por meio do quebrantamento. Somos vasos nas mãos do oleiro (Jr 18.3,4); e como vasos, somos feitos, no Senhor, conforme a Sua vontade, e não a nossa. Ainda que sejamos quebrados em Suas mãos, seremos renovados e transformados para a Sua glória.

            O crente precisa entender que há a necessidade de, dia após dia, ser curado do orgulho. E a cura, definitivamente, é a humildade. Quando Jesus diz que devemos aprender dEle, da Sua mansidão e humildade, Ele está nos dizendo que o caminho é a negação pessoal (Lc 9.23-24) e a obediência irrestrita e no Seu divino amor:

Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos. Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. (Jo 15.8-10) [Ênfase adicionada]

            Que o Senhor nos conceda a Graça da humildade para que alcancemos a perfeição nEle, porquanto, sendo perfeito, Ele nos alcançou a nós (Mt 5.48; Tg 4.10; 1Pd 5.6).

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

INCÊNDIO NA "KISS" INTERIOR




INCÊNDIO NA “KISS” INTERIOR

                        Era madrugada quando o embalo noturno fazia a alma queimar de exultação! A mesma alegria que incendiava o ambiente elevava a apresentação da banda que impensadamente quis trazer mais brilho ao show... Então, acrescido ao espetáculo o vislumbre pirotécnico, o que era alegria se transformou, em instantes, em medo, desespero e tragédia. O “momento” mudou as feições e fez dos sentimentos um turbilhão! O show trágico agora se tornou a luta pela sobrevivência. O tumulto era crescente ante uma saída tão pequena. As chamas nascidas da pirotecnia inflamam o reforço acústico que tinha como finalidade principal vedar um pouco do grito, do barulho, da música festiva... Não havia extintores que o poderiam extinguir; não havia mais reforço acústico que poderia vedar ou esconder o sofrimento... Gritos; correria; gente pisoteando gente no afã de simplesmente, e quem sabe, respirar. Não há escapatória: a saída é pequena demais pra libertar o turbilhão de sentimentos, de sensações. Não há tempo pra pensar, apenas para sentir o indizível e para tentar fugir do indescritível!

                        Lá fora, já em liberdade, junto ao ar, a tragédia se faz de mesmo modo sufocante e o reforço acústico de toda uma nação se vê, igualmente, inflamado. A nossa alma é que experimenta a asfixia. Entretanto, o instrumento pirotécnico é a morte de aproximadamente 230 jovens; é o sepultamento de centenas de sonhos e objetivos; é o enterro da alegria, dos sorrisos, dos choros, das reflexões, da cólera e de tudo aquilo que, de alguma forma, compõe o ser humano em sua perfeita imperfeição, em sua simples complexidade. Esse foi e é o quadro de Santa Maria – RS e, também, do Brasil.

                        Tudo isso nos faz pensar... No afã de achar a alegria inserta num simples “Kiss” (beijo), a história e a tragédia vêm se repetindo, e se repetindo, e se repetindo... A tristeza interior de nossos jovens tem sido tratada por placebo, transformando justamente esse interior numa boate em ebulição; o reforço acústico do medo, da ignorância, dos desejos vãos construídos pelo espírito mórbido dessa sociedade podre, é altamente inflamável e as almas desses meninos e meninas são constantemente asfixiadas e queimadas ante o desejo pelo prazer imediato; por uma simples e impensada apresentação pirotécnica.

                        Alguns, nessa tragédia diária e anterior a de Santa Maria, saem completamente desfigurados e, mormente, precisam de um transplante de pele para a pele de suas almas e de seus espíritos. Aqui surge a alma artificial que tenta minorar a deformidade estética, mas não esconde as marcas e os estragos de um viver imediatista. Outros carregam as sequelas das queimaduras que afetam as vias respiratórias e suas almas ainda respiram por conta dos tubos de uma UTI espiritual, que não passa de outro mecanismo artificial para se fazer sobreviver; sem, contudo, permitir viver com plenitude e novidade de vida.

                        A nossa juventude se vê deformada, asfixiada, pisoteada por filosofias fúteis, enganosas, inflamáveis, sem sentido. Nossa juventude se vê perdida em um labirinto escuro; em um ambiente de ar tóxico, sufocante. Nossa juventude vive tateando desesperadamente buscando uma saída, passando por cima de quem pode, pisoteando para tentar respirar o ar da liberdade que, infelizmente, a aprisiona justamente em um banheiro que sequer tem uma janela para ser quebrada, de modo a apresentar o lado de fora desse interior de horrores; e ali, junto aos dejetos e à urina, morre sufocada sem possibilidade de ver a luz de um amanhecer, ou a refrescante brisa de uma madrugada. É a falta de “kisses” verdadeiros, de abraços, de afeto e de amor que faz boates como a “Kiss” se encherem de meninos e meninas que querem, antes de tudo, preencher o seu insaciável vazio interior.  

                        Nossa juventude tem extrapolado a meia-noite, atravessando a madrugada como se o dia não fosse raiar. Assim, as atitudes inconsequentes ditam as suas regras e elevam paredes e tetos enegrecidos, acusticamente reforçados para que o grito verdadeiro do espírito não possa se exprimir; donde a saída representa um minúsculo espaço de um labirinto de medo, insegurança e pavor. É o medo do futuro; é a insegurança do imprevisto; é o pavor do fracasso... Enquanto isso, em tragédias como essas, vemos que fracassamos em nosso modo de vida; em nossas ambições vãs; em nossa filosofia vaga e tola.

                        Quem dera se a chama que inflamasse os nossos jovens fosse o Espírito Santo que transforma a própria morte em glória, e a dor em exultação por conta da consciência de se estar sob o domínio de um propósito maior, soberano e indescritivelmente maravilhoso!

                        É complicado dizer isso em um momento de intensa dor, mas todas as coisas contribuem juntamente para o bem dos que amam a Deus. Que esse lastimável fato nos faça orar pedindo que o Senhor possa consolar as famílias das vítimas de Santa Maria – RS, mas, antes de tudo, por nossos moços e moças que todos os dias são asfixiados, desfigurados e mortos numa “Kiss” interior... É com dor e com lágrimas que desejo e oro por isso...

                        Que Deus seja a esperança dessa nação e dos nossos jovens!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 4




Capítulo 3 – Ser ou não ser? Eis a questão. Ter ou não ter? Eis a solução!

            Conheço pessoas que são tão desejosas de ter uma experiência pessoal e íntima com Deus e que, porém, não conseguem mesmo se esforçando. Iniciam projetos para a Sua obra e logo desanimam. Propõem-se em alianças, mas não se reavivam. Desesperam-se tentando deixar de lado algumas práticas pecaminosas, mas não são perseverantes. Chegam a pensar que Deus não lhes chamou, nem tampouco os escolheu para a vocação no evangelho. Por isso vivem de crises existenciais e não conseguem ser constantes em nada (Ef 4.14). São chorosas, deprimidas, murmuradoras, amoldadas ao modo de vida, ou ao contexto a que estão inseridas. Assistir a tudo isso, para mim, é muito doloroso. Mas posso afirmar que todas essas situações têm, normalmente, uma causa comum que, diagnosticada, pode ser tratada e curada. Que tal buscarmos compreendê-la?

Entendendo a relação que há entre SER e TER, na vida espiritual e natural.

            Parafraseando Raul Seixas podemos afirmar: O querer é o que move o homem. Se não há desejo, não há motivação; se não há vontade, não ação; se não há ação, não há realização. O problema é que o desejo humano se inclina naturalmente para o que é contrário à vontade de Deus (Rm 8.6,7). Assim propôs o profeta Jeremias:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”. (Jr 17.9) [Ênfase adicionada]

            Quando as Escrituras falam do coração, estão tratando dos desejos. O Mestre Jesus, no sermão da montanha nos advertiu:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mt 6.21) [Ênfase adicionada]

            No coração é que se estabelecem os nossos maiores desejos; nossas mais desenfreadas paixões. Tudo aquilo que elevamos ao nosso coração alcança um patamar de importância vital, que tenta se expressar como alegria para nossa alma. O homem natural vive firmado naquilo que é palpável; em tudo que reflete alguma experiência sensorial. Já o homem espiritual se firma no que não é visível (2Co 4.17; Rm 1.17; Hb 11.1). Muitos creem que o homem natural vive num constante dualismo entre ser e ter, de modo que isso não caberia ao homem espiritual, visto que ele se importaria muito mais com o ser. Contudo, por incrível que possa parecer, todos nós, homens espiritual ou natural, somos inteiramente dependentes daquilo que nós temos. Essa é uma verdade bíblica pouco compreendida.

            Por isso, hoje eu queria te convidar a raciocinar comigo acerca dessa verdade, que foi anunciada pelo próprio Mestre Jesus. O nosso coração firma residência, justamente, onde se encontra o nosso tesouro – onde um estiver, aí, estará o outro. Podemos concordar facilmente que o tesouro não constitui a nossa essência; ou seja: o tesouro não é o que somos, mas é algo que temos de valor. Já o coração reflete a essência de nosso ser; ele é o que somos. Contudo, se existe um princípio incontestável que afirma que o meu coração está onde o meu tesouro está, posso afirmar que o que sou é, irremediavelmente, dependente do que tenho como valioso. O ser e o ter vivem uma fusão tão íntima que se tornam indissociáveis. Poder-se-ia afirmar que o ter não está acima do ser, nem o ser acima do ter. Nós, efetivamente, somos de acordo com o que temos de maior valor. Porém, o Espírito nos dá uma grande lição por meio de Paulo:
           
Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. (2Co 4.7) [Ênfase adicionada]

            Conquanto possa se conceber que o ser, normalmente, não está acima do ter e nem o ter acima do ser, o versículo acima aponta para a grande diferença que há entre o homem natural e o homem espiritual. Entendemos que há uma fusão entre o ser e o ter, de sorte os dois são indissociáveis. Porém, no homem espiritual, o Ter se revela extremamente superior ao ser.

            Observe a forma que Paulo escreve: “Temos, porém, este tesouro”. O tesouro, que é a resplandecente Luz de Cristo (v. 6), é magnífica e infinitamente superior ao que somos: “vasos de barro”. Há efetivamente uma fusão entre o ser e o Ter. O ser, porém, não está, tão somente, alocado junto ao Ter: o está contendo. O Ter foi depositado dentro do ser. Tudo isso para que não haja em nós qualquer tipo de exaltação, uma vez que a excelência do poder que é inerente ao Tesouro que temos, não é nossa, mas de Deus. Em suma, a composição do homem espiritual pode se expressar em TER-ser-NELE e DELE.

            Em toda essa compreensão se revela uma grande chave para solucionar o problema da essência de nossa carência interior. Alguns, após lerem o capítulo 2 do presente artigo, poderão exclamar: “Eu bem que queria me distanciar de algumas amizades que não têm me edificado, mas não consigo; estou preso a elas; elas me são muito valiosas!”; ou mesmo: “Eu bem que queria me libertar de algumas coisas, mas não consigo!”. O fato é que você se tornou dependente de tudo isso que você tem por valioso; o teu ser é o recipiente disto. Mas a grande questão é: Você se sente realizado com tudo isso que tem valorizado? Se o seu coração está na ambição do sucesso e do dinheiro, uma vez que você alcance tudo isso, há realização? Há preenchimento interior? É claro que não! Todas essas coisas que tenhamos como valiosas, ainda que alcancem a estatura do nosso ser, não nos podem preencher, pois nosso espaço interior é muito maior do que o que somos ainda que somados ao que venhamos a ter fora de Cristo.

            Certa vez a banda Fruto Sagrado cantou: “O vazio no peito é do tamanho de Deus”. Essa é a grande realidade! Isso porque Deus, sendo infinitamente maior do que somos, é a proporção exata do que, efetivamente, desejamos Ter, ainda que não tenhamos consciência disso. Isso se poderia, facilmente, coadunar com o princípio ontológico da economia: “As necessidades são infinitas e os produtos escassos”. Qualquer possessão que esteja fora de Deus não suprirá a lacuna de nossos corações. Contudo, há um ponto particular onde o princípio básico econômico falha: Sendo Deus infinito em todos os seus atributos, não há que se falar em escassez para aqueles que O constituem como Sua maior possessão; Seu maior desejo. Assim, somente um Deus infinito em sua magnitude pode atender às nossas necessidades infinitas!

            Em síntese, temos uma necessidade natural de nos relacionar, de ter. Isso é um fato incontestável. Como dito anteriormente, há um desejo ardente, uma carência extraordinária que nos motiva, nos envolve e nos compele a buscarmos preencher o vão que há em nosso interior. Essa é a famigerada “procura da felicidade”. E nesse afã é que nos atolamos, mais e mais, em prazeres que atenuam, mas não solucionam o problema. Porém, como eu posso alcançar a plena alegria? A resposta você conhece, mas deve vivê-la!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aforismos e Poesias: Lúcidos devaneios - Parte 20




A ermo...

Como expressar o que sente
quando se constitui de um turbilhão de mudanças?
Não é confusão e, sim, incompreensão acerca de si mesmo.
Está fadado a não se entender?
Enquanto isso ela se aproxima,
chega bem perto e lhe abraça.
Que toque álgido
e que hálito árido e frígido e vago...
Num fosco olhar que lhe arrebata todo e qualquer brilho,
o gris lhe cerca e desvirtua o que lhe era incandescente.
Por te desejar longe te aproximas tanto
e de tanto não te querer és seu preferido.
Mas a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.
Por que vens aqui hoje?
Já não fartaste a tua fome?
Devoraste-lhe até que nada
fez-se mais completo e cheio de signos...
E ainda vens? Que queres mais?
Já o amor se foi! Que mais lhe oferece?
Nem mesmo a inexistência lhe é qualificação devida:
Já não a tem e ainda não a é.
Mas sabe que é justamente o que não sabe...
E ainda voltas? Admiras a vacuidade de seu inexistir ser?
Sim, a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.
Até quando a tua doce companhia
amargará seu viver?
Não vês que odeia te amar
porquanto fazes bem ao seu mal?
Tua presença lhe repele
e tua distância lhe atrai.
És luz enegrecida que lhe aquece enquanto esfria.
És fôrma inconforme;
És também balé estático
ao compasso da arritmia que ordena o coração...
És o caos organizado e és o vidro inquebrável.
És diamante flexível?
És o daltônico colorido e és o surdo alarido.
És prazer dolorido e és mesmo sem ser.
És insignificante signo e és o resultado insolúvel?
És limite indefinido e és, da constância, a curva.
Ó, como a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.

Jordanny Silva