sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 4




Capítulo 3 – Ser ou não ser? Eis a questão. Ter ou não ter? Eis a solução!

            Conheço pessoas que são tão desejosas de ter uma experiência pessoal e íntima com Deus e que, porém, não conseguem mesmo se esforçando. Iniciam projetos para a Sua obra e logo desanimam. Propõem-se em alianças, mas não se reavivam. Desesperam-se tentando deixar de lado algumas práticas pecaminosas, mas não são perseverantes. Chegam a pensar que Deus não lhes chamou, nem tampouco os escolheu para a vocação no evangelho. Por isso vivem de crises existenciais e não conseguem ser constantes em nada (Ef 4.14). São chorosas, deprimidas, murmuradoras, amoldadas ao modo de vida, ou ao contexto a que estão inseridas. Assistir a tudo isso, para mim, é muito doloroso. Mas posso afirmar que todas essas situações têm, normalmente, uma causa comum que, diagnosticada, pode ser tratada e curada. Que tal buscarmos compreendê-la?

Entendendo a relação que há entre SER e TER, na vida espiritual e natural.

            Parafraseando Raul Seixas podemos afirmar: O querer é o que move o homem. Se não há desejo, não há motivação; se não há vontade, não ação; se não há ação, não há realização. O problema é que o desejo humano se inclina naturalmente para o que é contrário à vontade de Deus (Rm 8.6,7). Assim propôs o profeta Jeremias:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”. (Jr 17.9) [Ênfase adicionada]

            Quando as Escrituras falam do coração, estão tratando dos desejos. O Mestre Jesus, no sermão da montanha nos advertiu:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mt 6.21) [Ênfase adicionada]

            No coração é que se estabelecem os nossos maiores desejos; nossas mais desenfreadas paixões. Tudo aquilo que elevamos ao nosso coração alcança um patamar de importância vital, que tenta se expressar como alegria para nossa alma. O homem natural vive firmado naquilo que é palpável; em tudo que reflete alguma experiência sensorial. Já o homem espiritual se firma no que não é visível (2Co 4.17; Rm 1.17; Hb 11.1). Muitos creem que o homem natural vive num constante dualismo entre ser e ter, de modo que isso não caberia ao homem espiritual, visto que ele se importaria muito mais com o ser. Contudo, por incrível que possa parecer, todos nós, homens espiritual ou natural, somos inteiramente dependentes daquilo que nós temos. Essa é uma verdade bíblica pouco compreendida.

            Por isso, hoje eu queria te convidar a raciocinar comigo acerca dessa verdade, que foi anunciada pelo próprio Mestre Jesus. O nosso coração firma residência, justamente, onde se encontra o nosso tesouro – onde um estiver, aí, estará o outro. Podemos concordar facilmente que o tesouro não constitui a nossa essência; ou seja: o tesouro não é o que somos, mas é algo que temos de valor. Já o coração reflete a essência de nosso ser; ele é o que somos. Contudo, se existe um princípio incontestável que afirma que o meu coração está onde o meu tesouro está, posso afirmar que o que sou é, irremediavelmente, dependente do que tenho como valioso. O ser e o ter vivem uma fusão tão íntima que se tornam indissociáveis. Poder-se-ia afirmar que o ter não está acima do ser, nem o ser acima do ter. Nós, efetivamente, somos de acordo com o que temos de maior valor. Porém, o Espírito nos dá uma grande lição por meio de Paulo:
           
Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. (2Co 4.7) [Ênfase adicionada]

            Conquanto possa se conceber que o ser, normalmente, não está acima do ter e nem o ter acima do ser, o versículo acima aponta para a grande diferença que há entre o homem natural e o homem espiritual. Entendemos que há uma fusão entre o ser e o ter, de sorte os dois são indissociáveis. Porém, no homem espiritual, o Ter se revela extremamente superior ao ser.

            Observe a forma que Paulo escreve: “Temos, porém, este tesouro”. O tesouro, que é a resplandecente Luz de Cristo (v. 6), é magnífica e infinitamente superior ao que somos: “vasos de barro”. Há efetivamente uma fusão entre o ser e o Ter. O ser, porém, não está, tão somente, alocado junto ao Ter: o está contendo. O Ter foi depositado dentro do ser. Tudo isso para que não haja em nós qualquer tipo de exaltação, uma vez que a excelência do poder que é inerente ao Tesouro que temos, não é nossa, mas de Deus. Em suma, a composição do homem espiritual pode se expressar em TER-ser-NELE e DELE.

            Em toda essa compreensão se revela uma grande chave para solucionar o problema da essência de nossa carência interior. Alguns, após lerem o capítulo 2 do presente artigo, poderão exclamar: “Eu bem que queria me distanciar de algumas amizades que não têm me edificado, mas não consigo; estou preso a elas; elas me são muito valiosas!”; ou mesmo: “Eu bem que queria me libertar de algumas coisas, mas não consigo!”. O fato é que você se tornou dependente de tudo isso que você tem por valioso; o teu ser é o recipiente disto. Mas a grande questão é: Você se sente realizado com tudo isso que tem valorizado? Se o seu coração está na ambição do sucesso e do dinheiro, uma vez que você alcance tudo isso, há realização? Há preenchimento interior? É claro que não! Todas essas coisas que tenhamos como valiosas, ainda que alcancem a estatura do nosso ser, não nos podem preencher, pois nosso espaço interior é muito maior do que o que somos ainda que somados ao que venhamos a ter fora de Cristo.

            Certa vez a banda Fruto Sagrado cantou: “O vazio no peito é do tamanho de Deus”. Essa é a grande realidade! Isso porque Deus, sendo infinitamente maior do que somos, é a proporção exata do que, efetivamente, desejamos Ter, ainda que não tenhamos consciência disso. Isso se poderia, facilmente, coadunar com o princípio ontológico da economia: “As necessidades são infinitas e os produtos escassos”. Qualquer possessão que esteja fora de Deus não suprirá a lacuna de nossos corações. Contudo, há um ponto particular onde o princípio básico econômico falha: Sendo Deus infinito em todos os seus atributos, não há que se falar em escassez para aqueles que O constituem como Sua maior possessão; Seu maior desejo. Assim, somente um Deus infinito em sua magnitude pode atender às nossas necessidades infinitas!

            Em síntese, temos uma necessidade natural de nos relacionar, de ter. Isso é um fato incontestável. Como dito anteriormente, há um desejo ardente, uma carência extraordinária que nos motiva, nos envolve e nos compele a buscarmos preencher o vão que há em nosso interior. Essa é a famigerada “procura da felicidade”. E nesse afã é que nos atolamos, mais e mais, em prazeres que atenuam, mas não solucionam o problema. Porém, como eu posso alcançar a plena alegria? A resposta você conhece, mas deve vivê-la!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aforismos e Poesias: Lúcidos devaneios - Parte 20




A ermo...

Como expressar o que sente
quando se constitui de um turbilhão de mudanças?
Não é confusão e, sim, incompreensão acerca de si mesmo.
Está fadado a não se entender?
Enquanto isso ela se aproxima,
chega bem perto e lhe abraça.
Que toque álgido
e que hálito árido e frígido e vago...
Num fosco olhar que lhe arrebata todo e qualquer brilho,
o gris lhe cerca e desvirtua o que lhe era incandescente.
Por te desejar longe te aproximas tanto
e de tanto não te querer és seu preferido.
Mas a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.
Por que vens aqui hoje?
Já não fartaste a tua fome?
Devoraste-lhe até que nada
fez-se mais completo e cheio de signos...
E ainda vens? Que queres mais?
Já o amor se foi! Que mais lhe oferece?
Nem mesmo a inexistência lhe é qualificação devida:
Já não a tem e ainda não a é.
Mas sabe que é justamente o que não sabe...
E ainda voltas? Admiras a vacuidade de seu inexistir ser?
Sim, a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.
Até quando a tua doce companhia
amargará seu viver?
Não vês que odeia te amar
porquanto fazes bem ao seu mal?
Tua presença lhe repele
e tua distância lhe atrai.
És luz enegrecida que lhe aquece enquanto esfria.
És fôrma inconforme;
És também balé estático
ao compasso da arritmia que ordena o coração...
És o caos organizado e és o vidro inquebrável.
És diamante flexível?
És o daltônico colorido e és o surdo alarido.
És prazer dolorido e és mesmo sem ser.
És insignificante signo e és o resultado insolúvel?
És limite indefinido e és, da constância, a curva.
Ó, como a vida é testemunha de que és
sua mais odiosa dileção.

Jordanny Silva

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 3




Capítulo 2 – Andando; detido; assentado.

            Quando estava em Éfeso, por três meses Paulo pregou na sinagoga. Contudo, o apóstolo encontrou uma dificuldade no discipulado, dado ao fato de que alguns desobedientes, endurecidos e detratores do Caminho, estavam próximos dos novos crentes. O que o apóstolo fez? Retirou-se do meio deles e separou os discípulos para doutriná-los (At 19.9). Paulo não se preocupou com o número reduzido de discípulos, que era de aproximadamente doze. Ao contrário, foi perseverante em exortá-los pelo prazo de dois anos (v. 10). Essa atitude fez com que a palavra alcançasse o ouvido de todos os que habitavam na Ásia, tanto judeus como gregos (v. 10). Entretanto, quais os princípios observados pelo apóstolo nessa decisão de separar os discípulos? Para entendermos, precisamos ler e refletir o texto abaixo:

BEM-AVENTURADO o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará. Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha. Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos. (Sl 1.1-5) [Ênfases adicionadas]

            Lendo este texto, percebemos que a grande verdade, é que Paulo sabia que aquela influência maligna, daqueles ímpios, pecadores e escarnecedores que frequentavam a sinagoga, certamente deterioraria tudo o que ele ainda pretendia construir, pelo Espírito, por meio do discipulado. Hoje não é diferente. Grande parte das pessoas que nós vemos segregadas – por vontade pessoal e não porque alguém os segregou – e desanimadas com a obra de Deus, vivem em constante contato e relacionamento irrefletido com ímpios. O salmista, no trecho citado acima, apontou três atitudes desastrosas que normalmente os cristãos têm exercido. Apontaremos cada uma das três.

Andam no conselho dos ímpios.

            Há uma grande dificuldade de o cristão entender quem vem a ser o ímpio. Essa compreensão, entretanto, é crucial. Sem ela, não há como respeitar a instrução do salmista. Pois bem, ímpio não é aquele ser malvado, um quase serial killer espiritual; um psicopata da fé. Não! O ímpio é o indivíduo que não guarda o temor a Deus, vivendo irreligiosamente. O termo “ímpio” é constituído do prefixo “im”, que denota negação, ou ausência de algo/qualidade; e do sufixo “pio”, que aponta para a característica de alguém devoto, religioso. Logo, ímpio é o oposto de piedoso. Qualquer ser humano que vive distante da devoção a Deus, com todas as implicações da verdadeira religião que dali decorre, é considerado ímpio.

            Entenda algo: quando afirmo que todo homem ou mulher que vive essa condição enquadra-se nas características de um “ímpio”, aponto, inclusive, para aqueles que se dizem crentes no Senhor Jesus. Aponto também para mim, e para você, pois se andarmos distantes da devoção a Deus, somos ímpios e, estar debaixo de nosso próprio conselho é uma atitude nociva! Qualquer um que se diz servo de Deus tem que manifestar, inequivocamente, as características presentes no Mestre Jesus. Ou seja, deve buscar aprender do [e no] Senhor a mansidão e a humildade (Mt 11.29); deve manifestar a fragrância do perfume de Cristo (2Co 2.14-17); deve frutificar no Senhor Jesus (Jo 15.1-6, 16); deve ser um esboço das características do fruto do Espírito (Gl 5.22); deve caminhar na prática das boas obras (Ef 2.10; Tg 2.16), apontando e refletindo assim a verdadeira religião (Tg 1.26,27) etc. É evidente que, dificilmente, se encontrará um cristão perfeito em tudo isso. Mas, os verdadeiros discípulos de Jesus, caminham nesse sentido:

Para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos. Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Fp 3.11-14)

            Entende-se, pois, claramente, que qualquer homem ou mulher que não manifesta aquelas características, se encaixa no texto bíblico como ímpio. E é do conselho desse indivíduo que devemos fugir. Assim Salomão nos exortou:

Deixai os insensatos e vivei; e andai pelo caminho do entendimento. (Pv 9.6)
           
            A vida exige de nós inteligência nas tomadas de decisões. E o servo de Deus não deve permitir-se ser enganado pelo conselho daqueles que não guardam o temor do Senhor, ou mesmo que se afastaram de Sua presença por causa de seu orgulho. Ao discípulo prudente, portanto, não cabe seduzir-se pelo conselho dos ímpios. Lemos ainda, na Palavra, o seguinte:

Os pensamentos dos justos são retos, mas os conselhos dos ímpios, engano. (Pv 12.5) [Ênfase adicionada]

            Permita-se ser aconselhado, por exemplo, acerca de problemas de relacionamento com um lascivo, que está entregue aos seus desejos carnais; em breve você estará atolado em pensamentos pecaminosos e, quando menos esperar, já estará afundado em sua própria concupiscência! Deixe que um orgulhoso e arrogante te aconselhe acerca de como você deve lidar com sua esposa ou marido, ou mesmo com seu patrão, em seu lugar de emprego; em pouco tempo você estará divorciado e desempregado. Permita que um rebelde lhe ajude com um problema de comunicação que você tem com os seus pais; em pouco tempo no seu lar não haverá paz, mas será contemplado por tempestades, tornados e turbilhões de conflitos! Permita-se aconselhar-se com uma pessoa afastada da igreja por arrogância e orgulho acerca de alguma atitude em relação a sua liderança espiritual; em breve você experimentará uma frieza espiritual e um desânimo profundo em relação à fé, e ainda será capaz de culpar seus líderes por isso!
           
            Os conselhos dos ímpios são fundamentados no orgulho, na prepotência, na arrogância, na raiz de amargura. Por isso são enganosos! Encontram inspiração no próprio pai da mentira (Jo 8.44). Viva debaixo do conselho dessas pessoas que o desastre será cataclísmico em sua vida. O problema é que há muitos que se dizem cristãos, mas vivem uma realidade completamente dispersa do significado de ser cristão. São essencialmente carnais e de aparência de piedade, conforme o próprio apóstolo Paulo os denuncia:

Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? (1Co 3.3) [Ênfase adicionada]

            E novamente:

Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. (2Tm 3.2-5) [Ênfase adicionada]

            O que se vê regularmente em nossos templos é um grande grupo de irmãos e irmãs que tem sido levado pelos conselhos de pessoas impiedosas que se passam por piedosas. A Palavra nos exorta a nos AFASTARMOS dessas pessoas (2Tm 3.5). Estas vivem segundo a sua própria hipocrisia, enganando e sendo enganadas (2Tm 3.13). Fuja, igreja, de perto dessas delas. Elas se achegam cheias de mágoas; não conseguem, sequer, enxergar seus próprios erros. Lançam a culpa de seu esfriamento em tudo e todos, mas não caminham para o arrependimento. Estão arraigadas próximo aos lagares amargos do ressentimento! Afastar-se é um imperativo, uma ordem; não uma opção!

Detido no caminho dos pecadores.

            O verbo “detido”, aqui, tem uma profunda inferência; isso porque, como igreja do Senhor e arautos do Rei Jesus, nós temos o dever de nos achegar aos pecadores com a mensagem de arrependimento anunciada pelo evangelho (Mc 16.15,16; Mt 28.19, 20; Rm 10.15). Jesus foi o nosso grande exemplo! Ele não perdia uma oportunidade de cruzar o caminho dos pecadores. Para se ter uma ideia, Cristo firmou seu domicílio justamente em Cafarnaum (Mt 4.13). Porém, por que o Mestre quis habitar nessa cidade? O fato é simples: aquela região é apontada pelo profeta Isaías como “a região da sombra da morte” (Is 9.2; Mt 4.16). Era ali que a Luz deveria brilhar.

            Logo, não devemos fugir dos pecadores, tampouco dos ímpios. Afastar-se não é fugir! Pelo contrário, estes devem ser alertados e convidados ao arrependimento. Mas há uma grande diferença entre CRUZAR o caminho dos pecadores, a fim de ensiná-los, e DETER-SE em seus caminhos. O que temos visto atualmente, e por isso a igreja está doente e dormita, é que grande parte dos crentes não somente cruza o caminho dos pecadores, mas ali si detém. Por que, porém, os crentes têm se detido neste caminho? A grande resposta já foi dada anteriormente: Porque andam segundo o conselho dos ímpios! Uma coisa leva, inevitavelmente, à outra. Você começa se aproximando de alguém para ajudá-lo, quem sabe; em pouco tempo de conversa você já se silencia e começa a ouvir suas reclamações e seus conselhos; logo mais, as suas práticas pecaminosas já se revelam atraentes e o pecado vem jazendo à porta (Gn 4.7) do coração; alguns instantes mais, e você estará com a mente e o coração infestado de toda podridão. É fato: você estará, efetivamente, no caminho dos pecadores! Seu coração estará repleto de orgulho; de amargura; de razão humana; de desejos pecaminosos.

            O problema é que o caminho dos pecadores é atraente à carne. Não exige sacrifícios, nem negação (Rm 12.1; Lc 9.23, 24). Por isso é chamado de “caminho espaçoso” (Mt 7.13). Por que este caminho é espaçoso? Porque é feito para transitar por este todos aqueles que têm o ego inchado; aqueles que não são capazes de se esvaziar; são os “gorduchinhos” espirituais; está repleto de seres humanos ensimesmados. A porta, ao final deste caminho, é larga, pois deve ter espaço para que passem por ela homens e mulheres cheios de si. Mas, quão triste é esse caminho e quão belo é o Bom Caminho (Jo 14.6)! Deixe-se conquistar por Ele! Ele se deu por você e é a porta para a sua salvação (Jo 10.7)!

Assentado à roda dos escarnecedores.

            Assentar-se à roda dos escarnecedores é talvez o ponto mais baixo que alguém pode chegar concernente à degradação espiritual. O escárnio, a zombaria é o clímax da insensibilidade e, por incrível que possa parecer, é mais comum do que se imagina. Quando o Senhor Jesus foi conduzido para ser açoitado e, logo mais, crucificado, mesmos cientes de que não havia culpa nEle (Lc 23.4,22), aqueles soldados se insensibilizaram e o escarneceram (Mt 27.29). A dor que o escárnio gera transpassa a carne; açoita e mutila a alma.

            Quanto a esse terrível pecado, Paulo nos adverte:

Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. (Gl 6.7) [Ênfase adicionada]

            O verso citado acima é parte da revelação de um princípio: a lei da semeadura. A partir desta, tudo que o homem planta, inevitavelmente, ele colhe. De mesmo modo, o texto nos informa que a semente de maldade, do erro, do pecado é indubitavelmente escárnio perante Deus. Assim, todas as vezes que semeamos o mal, estamos zombando de Deus, como se Ele não tivesse poder para nos impedir; ou mesmo, como se não houvesse risco algum nesse ato. Assisti, certa vez, a um episódio do famoso desenho animado Tom & Jerry. Ali, o gato colocava um monte de ratoeiras com pedacinhos de queijo para conseguir pegar o rato. O ratinho, por sua vez, passava coletando os queijos das ratoeiras, dançando e rodopiando, como se tudo aquilo não oferecesse risco algum. Era engraçadinho, vê-lo zombando da cara do gato que não o conseguia, de forma alguma, surpreender com aquela armadilha. Isso acontece conosco da mesma maneira, porém, em relação a Deus. Brincamos e zombamos dEle enquanto nos atolamos em pecado. Rodopiamos diante do erro com uma dancinha escarnecedora e irritante; com um comportamento sarcástico e pensamos que nada nos poderá acontecer. Mas a ratoeira [o salário do pecado] está posta; e Deus não se deixa escarnecer (Rm 6.23).

            Mas, como se conceber, convictamente, que o escárnio é o mais baixo nível de degradação espiritual? No texto bíblico citado no preâmbulo desse capítulo (Sl 1.1-5), o salmista, inspirado pelo Espírito Santo, apontou para uma sequência de atos de modo que o primeiro vai conduzindo ao segundo, e o segundo, inevitavelmente, ao terceiro. Já entendemos que há uma correlação lógica entre andar segundo o conselho dos ímpios e se deter no caminho dos pecadores. Ocorre, porém, que aquele que se detém no caminho dos pecadores, com o tempo, acostuma-se a essa realidade. É o que Paulo chama de “consciência cauterizada”:

MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência (1Tm 4.1,2) [Ênfase adicionada]

            Aí reside o grande problema! Uma vez que a consciência está cauterizada no pecado, virtudes como a fé e o temor do Senhor dão lugar a um comportamento de zombaria e escárnio. Lembrando que escarnecer não significa zombar expressamente de Deus; mas sim, zombar dEle por meio de atitudes comportamentais coniventes a um viver pecaminoso. É a tradição do erro e da vã maneira de viver:

Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado (1Pd 1.18,19)

            Assim, o costume no pecado, é escárnio diante de Deus e contra Ele.

Destes afasta-te!

            Certa vez constituí um novo amigo. No início de nossa amizade, tudo estava bem. A sua companhia aparentemente me fazia bem. Mas com o tempo e mais intimidade, algo começou a me incomodar. O fato é que esse rapaz começava a contar diversas de suas experiências pecaminosas, e tentava me convencer que algumas delas eram normais e justificáveis. Algum tempo depois, todas as vezes que ele vinha conversar comigo, começava a me sentir mal, enojado. A minha alma começou a adoecer. Tiveram até vezes em que o hospedei em minha casa. Mas tive que cortar essa relação quase que abruptamente. Se não fizesse isso rapidamente, sinto que meu ser se afundaria.

            De mesmo modo, o convívio contínuo e imaturo com ímpios, pecadores e escarnecedores, certamente poderá influenciar o crente e abalá-lo espiritualmente. São em “rodas de amigos” que nos pegamos falando coisas indecentes e indevidas; alimentando pensamentos vãos; assimilando orientações e conselhos degradantes e inconvenientes. O apóstolo João também nos adverte nesse sentido:

Olhai por vós mesmos, para que não percamos o que temos ganho, antes recebamos o inteiro galardão. Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras. (2Jo vv. 8-11) [Ênfases adicionadas]

            A advertência acima é chocante. Mas o motivo da preocupação do apóstolo é para que os crentes não adoeçam. Há amizades que nos adoecem. Há convívios que nos arrancam a leveza de espírito e nos conduzem a um pesar de consciência. Há relacionamentos que nos afastam da Graça, do Conhecimento, da Santidade e da Glória de Deus.

            Às vezes vejo pessoas experimentando um intenso desânimo espiritual. Ao se buscar as raízes dessa falta de desejo e de prazer em Deus, normalmente, encontramos a razão em relacionamentos e amizades. Amados irmãos e irmãs: observem seus círculos de amizade e de relacionamentos. Examinem se tudo isso não tem sido um embaraço para seu relacionamento com Deus. Unam-se, em comunhão plena, àqueles que realmente buscam um viver de santidade e de reverência ao Senhor. Façamos isso, e a alegria do Senhor, bem como o desejo por Sua obra renascerá em nossos corações!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Aforismos e poesias: Lúcidos devaneios - Parte 19




Mar da impiedade

Num badalo de típica angústia,
dita o ritmo à tração dos remos,
indo logo onde não ir queremos,
sempre avante à regra da astúcia;

assim grita o coração minúcias
(tum, tum, tum) contra maré ou ventos,
vendo o lúgubre – nau de detentos –
no afã de não se provar da fúria...

Ah, quão revés tal desolação!
Indo junto ao tão vermelho som,
a guardar num desespero o ardor,

sentem náuseas às ondas do horror,
cujas águas em seu negro tom,
regem o tempo da vil percussão.

Jordanny Silva.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Adoecidos e Adormecidos - Parte 2



Capítulo 1 – Amoldados ao presente século.

            Olho para a nossa realidade e lastimo o fato de vivermos muito mais ocupados e embaraçados a questões materiais e de futilidade evidente, do que ao que é eterno. Somos cercados diuturnamente por ideais, tradições, princípios morais e costumes que estão em choque com a Palavra da Verdade. O mais triste é saber que temos nos adequado a toda essa influência maligna e aderido aos conselhos do espírito do anticristo, que já exerce poder e domínio sobre este mundo. O apóstolo João nos afirmou que este mundo está no maligno (1Jo 5.19), de sorte que quem opera aqui, sobre os filhos da desobediência (Ef 2.2), é o espírito do anticristo (1Jo 4.3).

            A igreja sabe disso e é doutrinada todo o tempo acerca desse fato. Mas continua sendo contumaz em seu caminho tortuoso permitindo-se ser conduzida neste. Quanto à possibilidade de se ver livre dessa influência, Paulo nos adverte da seguinte forma:

ROGO-VOS, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. (Rm 12.1,2). [Ênfases adicionadas]

            Ah, que preciosidades são as verdades evidenciadas neste texto! Há uma preocupação tão profunda do apóstolo para com a saúde espiritual da igreja, que ele chega a rogar “pela compaixão de Deus”. Ora, Paulo era conhecedor do extraordinário significado que havia nessa expressão. A compaixão de Deus é o ato mais sublime que já se manifestou no cosmos como graça a toda a criação. O âmago dessa compaixão é a gloriosa expressão de Seu indizível amor, manifesto aos homens na Cruz do Calvário. Essa compaixão foi pintada da mais graciosa e reluzente cor púrpura; foi demonstrada na conversão do coração de Cristo como em cera, derretido em Suas preciosas entranhas pelos nossos pecados. Essa mesma compaixão motivou o próprio Deus a tomar Seu Filho, feito em nossos pecados, possibilitando que fôssemos constituídos, por meio dEle, justiça de Deus (Sl 22.14; 2Co 5.21; Is 53.10).

            Só isso já seria suficiente para nos remeter, em temor e tremor, a um exame de consciência no sentido de buscar viver, em amor, o imperativo que se segue: “que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Evidentemente, o sacrifício acompanha todo o processo sacro, de liturgia íntima, reverente e vívida, piedosa, revestida de santidade aprazível ao Senhor; coberto de uma racionalidade pura, ousada, impetuosa, sincera, consagrada e prostrada diante do mistério do qual Ele está revestido, o qual Ele o é.

            Em seguida, o doutor dos gentios nos exorta a “não nos conformarmos com este século”. Para que essa verdade seja experimentada e aplicada às nossas vidas, é necessário que sejamos “transformados pela da renovação do nosso entendimento”. Esses degraus nos conduzem, incontestavelmente, à experiência inefável, absoluta, prazerosa e gloriosa da revelação da vontade de Deus em nosso interior (Jo 4.13,14; 2Co 4.16).

            Em suma, a nossa doença e dormência está inteiramente relacionada a esse distanciamento que se alicerça na indisposição de nos sacrificarmos, mesmo quando inteirados da sublime mensagem da redenção na Cruz, no sentido de sairmos debaixo de uma influência maligna, insensível, e nos rendermos à vontade soberana de um Deus amoroso. É, pois, uma questão de conformismo e comodismo espiritual. Porém, em quê devo sacrificar-me para me apossar, pela fé, dessa verdade, agradando assim ao meu Senhor e o que devo fazer para ter uma vida espiritual consistente? Tentaremos responder a estas e outras questões no decorrer deste artigo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carta aos Irmãos da ICADI




CARTA AOS IRMÃOS DA ICADI (MINHA CONGREGAÇÃO)

MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. (Tg 3.1)

            Antes de tudo, devo lhes informar que o texto abaixo foi escrito debaixo de muitas lágrimas. Cada palavra pesou em meu coração antes de ser dita e eu sentia aguilhões em minha alma enquanto escrevia.

            Há poucos que me conhecem em minha intimidade e tento deixar isso sempre assim, pois desse modo fui criado. Desde cedo recebi dos meus pais, sempre tementes a Deus, ensinamentos básicos e essenciais à fé. Acompanhei também o meu pai em seu pastorado e, por esse motivo, ufanei até por volta dos meus 21 ou 22 anos que nunca galgaria o caminho ministerial. Tenho testemunhas acerca dessa verdade.

            O fato é simples: Odiei qualquer tipo de manifestação de religiosidade, pois sempre enxergava hipocrisia em grande parte dos atos dos ditos “cristãos”. Odiava, com todo o meu coração, qualquer menção de que um dia eu poderia tornar-me obreiro, ministro ou qualquer outra coisa. Meu “chamado” era simples e simplesmente tocar um violão ou guitarra enquanto recebia elogios pela arte e técnica que me acresciam. Tocava por prazer! Tocava não para adorar, mas pelo prazer de tocar!

            Quando comecei a cursar o ensino superior, não demorou muito para duvidar de tudo aquilo que se apresentou como verdade aos meus ouvidos desde que nasci. Para quem não sabe, nasci em berço evangélico e não de qualquer evangélico, mas de pai e mãe que realmente viviam a piedade. Mas as minhas indagações sempre foram muito fortes e, sempre que podia, tentava repudiar grande parte do que meus pais apregoavam como verdade por meio de alguma atitude rebelde. Até mesmo furei a orelha e deixei os cabelos um pouco longos! Dá pra acreditar?

            Tornei-me ateu em segredo. Isso mesmo! Se é que pode existir um ateu secreto, eu me tornei um desse tipo. Não era capaz de me manifestar abertamente como ateu, pois não abria mão de tocar na igreja. Por muito tempo, tocar na igreja, pra mim, era apenas tocar por tocar, visto que já não acreditava em muito do que acontecia, de modo que a fé e a própria existência de Deus se faziam duvidosas para o meu coração jovem. Algumas vezes chegava até a entrada da faculdade, olhava para o céu noturno e pensava: Duvido que Deus exista! Fui alimentado, enquanto isso, por uma vasta literatura que negava a fé de meus pais. Vi-me, assim, cheio de razão para não crer!

            Até que, por meio de questionamentos, passei a reconsiderar a minha apostasia e, quando percebi, tornava a crer em Deus com muito mais força do que pudera ter crido. Não tratarei disso hoje, pois não vem ao caso. Em seguida, já acostumado com alguns movimentos neopentecostais, vi a minha igreja emaranhar-se por uma via de doutrinas novas e absurdamente atraentes. Adotamos o modelo celular e começamos a aplicar o “Encontro com Deus” em nosso meio. Parte dessa narrativa já foi trazida à “Análise do Encontro”. Pouco tempo depois, voltei-me para a Palavra e, observando a ordem argumentativa e os abusos doutrinários que havia no Encontro, tentei confrontá-los um a um.

            Isso me custou caro! Mais caro do que eu poderia imaginar! Durante todo este processo, quando fui percebendo o que me acontecia, já estava participando do corpo ministerial de minha igreja e, algum tempo depois, fui ordenado pastor. Logo eu, que sempre odiei a possibilidade de seguir o caminho episcopal, agora estava ali, sendo ordenado. Recebi essa ordenação com muita dor! Chorava às vezes por horas diante desse fato... Uns poucos ficaram sabendo disso! Nunca me vi preparado para o ministério e assumir um cargo como esse era algo que meu interior sempre repudiava. Repudio até hoje o título e gosto de deixar bem claro que, antes de ser pastor, sou homem e dos mais falhos que se possa conhecer.

            Entretanto, algo que cresceu junto com essa ordenação, não foi uma alegria diante do título, mas um choro diante da responsabilidade. Meu coração se atormenta com angústia profunda e meu corpo se estremece só de pensar no quanto essa ordenação se faz pesada sobre os meus ombros! Às vezes o temor me faz fugir para dentro de mim mesmo de uma forma tão desesperada, que me tira o fôlego! Quantas noites mal dormidas desde a minha ordenação! Vivo uma constante guerra interior onde ao mesmo tempo me alegro com cada vida que Deus coloca sob o nosso cuidado, mas tremo ante, justamente, esse cuidado para que não leve uma vida a um caminho indevido, por conta de uma mensagem ilusória, vã, fútil, egoísta.

            É este zelo que faz ser tão azedo, tão contundente, tão incisivo, tão irredutível quanto às minhas convicções fundamentadas na Palavra da Verdade! Amo tanto a cada irmão e irmã da ICADI, sentindo-me responsável por apresentar suas vidas ao Senhor com pureza. Às vezes choro só de imaginar que alguém não venha a se achegar a Cristo por conta de algo que eu preguei, ou pela minha forma de pensar! Não quis o ministério, mas o Senhor me quis no ministério e isso eu não posso negar!  

            Antes de experimentar o ministério, não tinha consciência do peso que aquelas palavras proferidas por Tiago, irmão de Jesus, percebiam: “Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.”. Que duro juízo poderia ser este? Tornei-me mestre em minha igreja, ensinando e doutrinando sempre que posso e com tudo o que posso. Mas de que duro juízo este texto trata? Para mim, particularmente, esse duro juízo já é agora (e escrevo essas palavras derramando-me em lágrimas e com uma dor inexplicável em meu interior), presente a cada instante em meu coração, em minha consciência; sufocando muitas das vezes a minha alma! Este texto que apresento a vocês certamente é um daqueles que tem carne e sangue; que tem alma, dor e muita angústia! Todos os dias da minha vida, desde o exercício de meu ministério por meio da Palavra de Deus, são recheados por interpelações e juízos interiores, desde os mais brandos até os mais furiosos! Vejo-me às vezes colérico comigo mesmo a ponto de, literalmente, desejar me esmurrar! É aí que entendo, ainda que um pouquinho, as dores do apóstolo Paulo:

Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser reprovado. (1Co 9.27).

            É por isso que rejeito tudo aquilo que de alguma forma apenas encherá os corações, daqueles que foram confiados ao meu ministério, de ilusão; ou qualquer pregação que julgo ser fraudulenta, presto-me a alertá-los denunciando com esmero, temor e tremor! Quando, em algumas das vezes, percebo em mim vanglória por ter chegado à consciência ou entendimento de uma doutrina, ou revelação de um texto da Palavra que não é bem claro a outros, corro para os pés do meu Deus e rogo a Ele que me quebrante, para que a glória nunca seja minha! Vocês não imaginam o quanto tenho sido quebrantado!

            Não posso coadunar com nada daquilo que se difere de minha consciência em Cristo e na Sua Palavra! E por isso reitero, no amor, que me sinto compelido a denunciar os atos fraudulentos e irresponsáveis daqueles que, por vaidade, recebem o ministério como diversão, enchendo templos e conquistando vidas para uma ilusão; ou ainda para uma extorsão em massa! Não! Basta! Será que alguns pastores não percebem que nós estamos tratando com vidas? São vidas! São pessoas! São almas sedentas da verdade! São almas sedentas de afago, de carinho, de amor! São crianças tão desesperadas pela verdade, que se entregam a qualquer um que se mostre um pouco idôneo, e que afirme que fala em nome da verdade... Não posso coadunar com isso!

            Não brinco de ser pastor! Não! Nunca! Faço o possível para entender a Palavra da Verdade, interpretando-a conforme a Graça do Espírito Santo! Eu sei o que sinto e o que sofro! Eu tenho entendido, dia a dia, o que esse ministério tem me custado... Quem me conhece sabe, inclusive, que sempre fugi do título (pastor) como a fauna se põe em fuga diante de uma floresta em chamas! O juízo de Deus já se opera sobre mim, desde já!

            Falo isso às ovelhas que têm sido postas em nossos cuidados! Amo a vocês de todo o meu coração. Peço a Deus que me tire deste mundo precocemente, caso eu venha em algum momento tratar com leviandade a pregação de Sua Palavra; ou que me sustenha até que este serviço seja terminado, para a Sua Glória! Serei azedo, como voz profética, enquanto o Senhor me sustentar! Serei apaixonado por este povo maravilhoso que o Senhor tem colocado aos nossos cuidados e, principalmente, pelo meu Senhor! Tu és o meu Deus, a Vida da minha vida!

            Tudo isso que escrevi a vocês é testemunhado comigo, no Espírito Santo, em minha própria consciência, conforme os dizeres dolorosos do doutor dos gentios (Rm 9.1).

            É com dor, com pesar, temor e tremor que encerro minhas palavras desejando a todos, de todo o meu coração, a Paz do Senhor!

              Em Cristo,

            Jordanny Silva.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Prefiro o Inferno!




Prefiro o Inferno!

            Há uma questão que sempre corroeu as entranhas do meu ser: Como, mesmo diante de um sacrifício tão perfeito e absoluto, os homens não desejam vida eterna apresentada por Cristo? Por várias vezes pensei que, do aspecto humano, a incredulidade poderia até mesmo ser justificável, uma vez que a história Cruz, narrada no texto sagrado, é um tanto incrível. Se não vejamos: um Deus soberano que se faz homem e, como homem, decide ser servo obediente até a morte, e morte de cruz; tudo isso para que fôssemos salvos nEle pelo simples ato de crê-lO como o nosso salvador. Essa afirmação é, em primeiro contato, no mínimo, inacreditável.

            Por esse motivo, pensava eu, é plenamente possível ter razão em não crer. Logo, a rejeição ao sacrifício vicário de nosso Senhor Jesus seria, sim, justificável. Contudo, com o tempo e meditação nessa realidade, passei a compreender que a razão da incredulidade é mais profunda. Como dizem: “o buraco é sempre mais em baixo”. Percebi, então, que há uma incompatibilidade do aspecto mais abrangente da salvação com a questão da incredulidade e, em simples palavras, posso afirmar com convicção que os incrédulos sentem nojo, total repugnância de qualquer substância que venha do Céu. Assim quedou registrado em Números:

Então partiram do monte Hor, pelo caminho do Mar Vermelho, a rodear a terra de Edom; porém a alma do povo angustiou-se naquele caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil. (Nm 21.4,5)

            Conforme já bem propôs o príncipe dos pregadores, Charles Spurgeon, e o próprio texto nos revela isso explicitamente, o “povo se angustiou naquele caminho”. E que caminho era aquele? Era o caminho proposto e designado por Deus. Esse caminho passava pelo deserto. Essa nossa existência terreal, por várias vezes, nos apresenta o deserto como sendo o caminho de Deus. Há pessoas que irão responder bem a esse caminho por meio de um aperfeiçoamento interior. Há outros que irão simplesmente se permitir afundar no amargo do ser, sem compreender e, tampouco, submeter ao que o caminho significa.

            Muitas coisas que acontecem em nossas vidas, por mais duras que sejam, representam um propósito maior, sob a regência soberana do Criador. Angustiar-se nesse caminho é comum para os que não são capazes de experimentar as dádivas do céu e as próprias maravilhas que ali podem se manifestar. O resultado é uma vida amarga e que já não contenta com tudo que, em Deus, é adquirido. Você, caro ledor, provavelmente já encontrou pessoas tão amargas que não manifestam qualquer sorriso ou satisfação; refletem em seu semblante apenas uma contrariedade ímpar e uma insatisfação gritante. São rostos decaídos e enfurecidos com a vida. Suas bocas apenas propagam palavras azedas e desconfortáveis, por meio de palavrões e xingamentos que transbordam murmúrios e descontentamentos. Já não manifestam sensibilidade ao sorriso de uma criança, ou ao abrir de uma flor.

            Naqueles dias, o povo de Israel, com propriedade peculiar de um incrédulo que não vê mesmo diante de provas incontestáveis, chega ao ponto de dizer que o maná, o pão que descia do céu, era vil. Ó, que comparação terrível! O pão que o Senhor, que os havia libertado do cativeiro, mandava dos céus era, justamente, o pior tipo de alimento para cada um daqueles que murmuravam. Fico imaginando como isso atingiu o coração de Deus; quão grande dor a incredulidade e a murmuração produziram em Seu coração. É impossível ao homem colocar-se no lugar de Deus; mas, imaginar a tristeza de Seu interior, ainda que modo diminuto, pode nos fazer compreender a dureza da pena que Ele prescreveu sobre a nação israelita: serpentes venenosas.

            Eu gostaria de voltar um pouco nas infelizes palavras que o povo israelita pronunciou: “E a nossa alma tem fastio desse pão vil”. Que expressão dura, diante de uma dádiva gloriosa e incomparável. O salmista nos deixa claro que aquele alimento que era dado, gratuitamente, ao povo, era a comida dos anjos (Sl 78.25), propriamente dita. Não havia algo melhor de Deus a ser dado ao Seu povo que próprio alimento dos anjos. Era comida celestial! É esse alimento que gera nojo e repugnância ao estômago incrédulo. Que tipo de repugnância era essa? Era do tipo de quando alguém come abastadamente, fartando-se e é colocado, novamente, alimento diante dele; uma vez empanturrado, ele não sente mais o desejo de comer; porém, é preenchido por um sentimento de repugnância. Assim, para o ímpio e incrédulo o céu não lhe é o lugar ideal para se viver, mas é fastio, repugnante, tedioso e sem qualquer atrativo que lhe abra o apetite. Isso porque ele já se vê abastado de sua injustiça e maldade ao ponto que o alimento divino lhe é indesejado e, porque não dizer, vil.

            Devemos entende ainda que aquele pão, descido do céu, já figurava o propósito de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Pão que desceu do céu. Esse pão não gera fastio nos justos, que foram justificados por Sua indizível Graça. Não! Pelo contrário, aqueles que são justificados clamam por esse Pão mais do que por qualquer outra coisa:

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos (Mt 5.6)

            A incredulidade gera conformidade para com a injustiça. A injustiça opera enchendo as entranhas dos ímpios nunca os deixando satisfeitos, mas sempre inflando seu interior para que não se manifeste apetite pelas coisas que são de Deus; para as boas obras que Ele preparou para que andássemos nelas. Assim, aquele que rouba sente cada vez mais desejo de roubar, mas não se alegra na satisfação do trabalho digno; aquele que mente, não se sacia de sua mentira, mas foge diante do aroma da verdade, o qual lhe é nauseante; aquele que adultera se empanturra de pensamentos lascivos e de desejos impuros, mas não se interessa pelo prazer que engloba o enlace matrimonial e tudo que daí decorre, tal como a fidelidade, o amor e o desejo de se ofertar àquele que ama.

            O Pão descido do céu apenas sacia a fome daquele que efetivamente sente fome das coisas que são inerentes ao céu. Num mundo sem paz, será saciado aquele sente fome e sede de paz; num mundo de rancor, será saciado aquele tem fome e sede de perdoar e de ser perdoado; num mundo de trevas, será saciado aquele que tem fome e sede da luz que resplandece as boas obras; num mundo de angústia, será saciado aquele que tem fome e sede de refrigério para a alma; num mundo de soberba, será saciado aquele que tem fome e sede de humildade; num mundo de desordem, será saciado aquele que tem fome e sede de obedecer; num mundo de impiedade, será saciado aquele que tem fome e sede pela causa dos desamparados e necessitados. Assim, como bem diz o texto: “bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”.

            Aqui a salvação não se manifesta em simplesmente crer em Jesus, como expressão vazia de significado; na verdade, a salvação se estende àquele que crê no que o homem e o Deus Jesus representa. Ele representa a verdade, a justiça, o amor, a paz, a bondade, o juízo, a mansidão, a humildade; representa também o ódio e a ira a tudo aquilo e a todo aquele que se faz contrário à sua obra. Eis um resumo de Sua soberana obra:

Mas o fruto [a obra] do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança. (Gl 5.22)

            Deus nos designou para que trilhássemos pelo caminho desértico dessa existência, nessa vida aqui. Mas, ainda aqui, mesmo diante de toda a provação, recebemos dádivas grandiosas do nosso bom Deus. É só começarmos a observar! Tal como naqueles dias o Senhor se manifestava, indo adiante do povo, numa coluna de nuvem, que amenizava o ferrenho sol do dia e numa coluna de fogo que, além de protegê-los, os aquecia das frias noites, hoje temos o refrigério de Seu Espírito, que nos consola e o calor de Seu poder que nos aquece. Esses refrigério e calor se manifestam também no amor e na união da Igreja do Senhor Jesus; daqueles irmãos que não perdem a oportunidade de se congregarem em amor. Longe desse ambiente há desolação e tristeza. O Pão do céu que temos acesso hoje é muito mais glorioso que aquele dado ao povo de Deus, no deserto: É Cristo ressurreto, em quem podemos crer, confiar e nos alimentar. A Sua justiça e a Sua obra saciam a nossa fome e sede, motivando-nos a vivermos nEle, dEle e para Ele; cumprindo Seu glorioso propósito e anunciando Seu magnífico evangelho.

            Após expor tudo isto, acredito que o título do presente texto se faz autoexplicativo. “Prefiro o Inferno” é justamente o que diria um ímpio em toda a sua perversidade interior. Estranho tratar assim de forma tão contundente, mas essa é a pura verdade. Contudo, neste momento, eu gostaria que cada um de nós fizesse um exame pessoal. É provável que assim percebamos que, em grande parte desta nossa jornada aqui na Terra, temos de mesmo modo preferido o Inferno ao Céu.

            Olhe para si mesmo e veja o quanto o seu coração tem ansiado por justiça, por santidade, por amor e pela glória de Deus! Qual tem sido, por exemplo, a nossa reação diante daqueles que experimentam a dor e a desolação? Os pequenos e necessitados têm obtido de nós apenas a frígida indiferença e essa se faz uma realidade incontestável. A nossa omissão revela o quanto o pão do Céu (Cristo) tem se revelado fastio ao nosso interior inchado, cheio de nossos desejos egocêntricos. De mesmo modo, quando ninguém está próximo, você tem se rendido à pornografia e à imoralidade como se isso não representasse nem mesmo pecado? E os seus desejos? Tem sido apenas para alimentar o buraco negro do seu ego? Ainda poderia citar a sua sede de sempre sair ganhando sobre os outros, aliás, vivemos no mundo dos espertos! Esse é o famoso "jeitinho" brasileiro, não é mesmo? 

            É momento de reflexão, pois as nossas atitudes em relação ao pecado e a nossa omissão diante da injustiça revelam se temos preferido ao céu ou ao inferno!
     
Jordanny Silva.