quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lembrança de um grande amigo...








Hoje fazem exatos 11 (onze) anos que meu grande amigo, Josué Rodrigues Neves, partiu para o Senhor.

Deixou muitas saudades visto que passou por esta existência marcando os nossos corações. Lembro-me de suas brincadeiras, de suas caras e bocas e o jeito moleque que conquistava qualquer um que o conhecia. Tinha ele 26 anos (como me corrigiu minha amiga Geyse Ambrósio) quando um acidente nos privou de sua alegre companhia. Recordo-me que, no seu último aniversário, a juventude Renovação enviou à porta de sua casa um carro de som para homenageá-lo, o que não o constrangeu nem um pouco. Depois ainda brincamos como crianças, dançando o check-check (acho que era esse o nome da dança).

Lembro-me de seu amor por seu Estado, Tocantins, e em especial por Palmas, manifesto numa foto que ele deixava a vista de todos em seu quarto, quando ainda morava em uma quite na quadra 4 do Setor Sul do Gama – DF. Em seu computador havia várias plantas e desenhos, pois seu desejo era tornar-se engenheiro arquitetônico. Creio que alguns daqueles desenhos nunca irão se apagar de minha mente. Recordo-me, também, do jornalzinho idealizado, construído e editado por sua mente criativa, onde havia várias matérias de interesse da igreja e da mocidade Renovação.

Infelizmente, na noite de 06 de outubro do ano 2000, devido à imprudência de um taxista que tentou uma ultrapassagem pelo acostamento, o carro em que Josué estava foi arremessado contra um ônibus ocasionando a morte dele e de outros dois jovens. Sobreviveu, por milagre, apenas o motorista do carro em que Josué se encontrava, Alan José da Costa. A partir daquele triste dia, três mães não mais sentiriam o afago de seus filhos, cujos nomes trago à memória: André Santos de Oliveira, Arlan de Souza Lima e, meu grande amigo, Josué Rodrigues Neves.

Não posso deixar de citar minha indignação ao saber que o condutor do táxi que deu causa a todo o acidente, cumpriu a pena de 2 (dois) anos, 4 (quatro) meses e 24 (quatro) dias de detenção, no regime aberto, e – pasmem! – teve sua carteira de habilitação suspensa por apenas 2 (dois) meses e 12 (doze) dias, conforme acórdão prolatado no dia 10 de maio de 2007, no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (Apelação Criminal nº 2001.08.1.001207-3).

As nossas lágrimas, porém, foram estancadas pela esperança de um reencontro que, de modo singelo, expressei numa canção:

Um olhar sem direção
Ao ouvir uma canção
Muitas lembranças vêm e vão
Seria um adeus, ou não?
Palavras que às vezes dão
Uma pontada ao coração
Tornam mais forte a petição
Por um reencontro entre irmãos

Uma saudade que não cessa
Uma esperança que é certa

Aos que partiram até breve,
Que aos que ficaram nunca cesse
O amor de Deus que prevalece.
A união que nos aquece
Consola àquele que carece
De uma palavra ou uma prece
Tal qual o querer que se persegue
De um grande amigo não se esquece.

A todos vocês que têm grandes amigos, cultivem esse momento e curtam uns aos outros. O mais importante de tudo é cultivarem essa amizade na presença do Eterno, para que, nem mesmo a distância ou a morte, possam separá-los do amor que se revelará infinito, tanto em tempo quanto em profundidade, quando não mais estivermos nesse plano.

Em breve nos encontraremos de novo! Assim creio; assim espero!


Jordanny Silva

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Aforismos e poesias: lúcidos devaneios - Parte 9



Horizonte

Aqui e ali posso fugir de quiser onde?
Pois lá e de cá não sei sentir e ouvir o vento,
e em mim (sem mim) opera sempre a lei do tempo;
de per si me então perco... Adiante o horizonte,

que é alvo meu, mas, atrevido, se esconde;
sei que o não pego – estando à vista me contento;
e no existir o persegui-lo é meu alento:
De lá e de cá o quanto me achego se põe longe.

Talvez os olhos me enganem quanto ao fim,
- Não sei se ao certo a paz ou dor ali reside -
mas nunca fujo sempre e sigo no caminho,

e no fim chego não chegando ao fim da linha;
já que é certo que o incerto é regra, sim!
E que o previsto no imprevisto ali consiste.

Jordanny Silva

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Aforismos e poesias: lúcidos devaneios - Parte 8

Querer
Quisera eu querer o que queres,
mas meu querer não quer o que quero
Quando quero ao bem querer.

Quisera eu querer o que queres
e me quiseste, a mim,
que só queria aos meus quereres.

Quisera eu querer o que queres
e me quiseste com bem querer
mesmo eu não sendo o que querias.

Quisera eu querer o que queres
e me quiseste num bem querer
sem que eu quisesse o que querias.

Quisera eu querer o que queres
e quiseste que eu quisesse
querer-te como me queres.

Quisera eu querer o que queres,
mas ainda te quero num querer
que não te quer o quanto me queres.

Quisera eu querer o que queres
e hoje quero que o meu querer
te queira o quanto sou querido.

Não quero muito do que queria
e quero querer menos o que já quis,
mas já te quero e quero-te, já, e mais,
pois me quiseste, me queres e me quererás.



Jordanny Silva
Brasília – DF, 16 de agosto de 2011.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Aforismos e poesias: lúcidos devaneios - Parte 7

Esta publicação é dedicada a todos os papais e, em especial, aos seguintes:





*Divino Aparecido (meu paizão) *Vovô Antônio Honório e vovô Pedrinho (in memorian) *Aos meus tios: Bernardo, Carmelito, José de Fátima, Moisés, Nelino, Nilson e Pr. Cacá *Ao meu irmão, primos e amigos: Jonny, Heberson, Marcelo, Pedrinho, Rick, Junior Sax *Aos irmãos de minha igreja (ICADI Gama e Novo Gama): Alex, Anivaldo, Elson, Eliziário, Inácio, Inailson, Mário, Marcos, Pr. Pedro, Tom e Wellington (o mais novo papai da ICADI) * E todos aqueles que têm feito a diferença no cuidado e zelo que Deus os confiou, inclusive gerando filhos espirituais. Abraços a todos e Feliz dia dos Pais!



Acima de tudo ao nosso Papai Soberano que tem cuidado de nós, nunca nos deixando ao léu! Glória e honra ao Teu Nome...



Soneto do amor paterno

Busquei zelar-te inocente o quanto pude
Sabendo que hás cercada em tão bravas ondas
De um mar que de revolto grandes pedras, conchas
Mostrou bela aparência – mas é vil e rude

Tentei trazer-te à visão da vida cônscia
Enquanto vi, de cá, à submersão tão triste
Do bravo ser teu, que em respirar insiste
Mas que ao orgulho cede e rende à arrogância

Se pedes minha ajuda, a boia do conselho
Te lanço e se ainda te não for suficiente
Me deito às águas frias mesmo que distantes

Pois meu pavor maior de te perder adiante
Faz-me sacrificar da vida até o enredo
No anseio de manter-te ao peito meu bem rente.

Jordanny Silva
Gama – DF, 09 de agosto de 2011.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Aforismos e poesias: lúcidos devaneios - Parte 6

Soneto da dor presente

À beira do mar um grito
Alento, ao léu, distante
Do ermo fiz meu amante
Quimera? Licor sombrio

Aquiesço à dor: amiga
Que nunca me deixa só
E faz-me lembrar (sou pó)
E em meu coração habita

No hálito: amor, desejo
Não sei definir se o quero
E volto ao ódio e medro

A ânsia do ser – tortura
Sã mente ou sã loucura?
Se a quero entender, esqueço.


Jordanny Silva
Brasília – DF, 02 de agosto de 2011.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Dois surdos: os religiosos e o movimento gay



Por Willian Douglas




Via: Genizah


A decisão do STF, de ser comemorada e criticada, é apenas mais um round na luta irracional que se desenvolve entre religiosos e o movimento gay. O STF acertou na decisão, mas errou em sua abordagem. Ao invés de interpretar a Constituição, ousou reescrevê-la sem legitimidade para tanto. Mas, que razões levaram a Corte Suprema a isso? A imperdoável incapacidade dos contendores de agir de forma tolerante, democrática e respeitosa. A terrível intenção, de ambos os lados, de forçar o outro a seguir seus postulados, em atentado contra a liberdade de escolha, opinião e crença.


Quem ler os relatos contidos em anais da constituinte verá que incluir o casamento gay na Constituição foi assunto derrotado nas votações. O STF mudar esse conceito e ignorar a decisão do constituinte originário é ativismo judicial da pior espécie, mas o STF tem suas razões: os religiosos, ao invés de negociar uma solução, se negam a mexer na Constituição.



O erro da intolerância, o movimento gay também comete ao tentar impor um novo conceito de casamento ao invés da aceitação da união civil estável homoafetiva, e mais ainda, ao defender um projeto de lei contra homofobia que desrespeita a liberdade de opinião e religiosa (PLC 122). Isso para não falar do “kit gay”, uma apologia ofensiva e inaceitável para grande parcela da população. Não há santos aqui, só pecadores. Em ambos os lados.




Erram os religiosos ao querer impedir a união civil homossexual, calcando-se em suas crenças, as quais, evidentemente, não podem ser impostas à força. Mas erra também o movimento gay em querer enfiar goela abaixo da sociedade seus postulados particulares. Vivemos uma era de homofobia e teofobia, uma época de grupos discutindo não a liberdade, mas quem terá o privilégio de exercer a tirania.




Negar o direito dos gays é tirania dos religiosos. De modo idêntico, impor sua opinião aos religiosos, ou calá-los, ou segregá-los nas igrejas como se fossem guetos é tirania do movimento gay. Nesse diálogo de surdos, o STF foi forçado a decidir em face da incompetência do Congresso, dos religiosos e do movimento gay, pela incapacidade de se respeitar o direito alheio.
Anotemos os fatos. O STF existe para interpretar a Constituição, não para reescrevê-la. Onze pessoas, mesmo as mais sábias, não têm legitimidade para decidir em lugar dos representantes de 195 milhões de brasileiros. Os conceitos “redefinidos” pelo STF são uma violência contra a maioria da população. Nesse passo, basta ler o artigo Ulisses e o canto das sereias: sobre ativismos judiciais e os perigos da instauração de um terceiro turno da constituinte, de Lênio Luiz Streck, Vicente de Paulo Barreto e Rafael Tomaz de Oliveira, disponível em meu blog. O resumo: apenas Emenda à Constituição pode mudar esse tipo de entendimento. O problema: a maioria se recusa a discutir uma solução contemporizadora que respeite e englobe a todos.




O Supremo agiu bem em alertar sobre a incapacidade das partes de resolverem seus problemas no Congresso, mas errou em, ao invés de se limitar a assegurar direitos de casais discriminados, invadir o texto da Constituição para mudá-lo manu militari.




O STF não se limitou a garantir a extensão de direitos, mas quis reescrever a Constituição e modificar conceitos, invadindo atribuições do Poder Legislativo. Conceder aos casais homossexuais direitos análogos aos decorrentes da união estável é uma coisa, mas outra coisa é mudar conceito de termos consolidados, bem como inserir palavras na Constituição, o que pode parecer um detalhe aos olhos destreinados, mas é extremamente grave e sério em face do respeito à nossa Carta Magna. “Casamento” e “união civil” não são mera questão de semântica, mas de princípios, Nem por boas razões o STF pode ignorar os princípios da maioria da população e inovar sem respaldo constitucional.




Enfrentar discriminações é louvável, mas agir com virulência contra os conceitos tradicionais, e, portanto, contra o Congresso e a maioria da população, diminui a segurança jurídica diante da legislação. A tradição existe por algum motivo e não deve ser mudada pelo voto de um pequeno grupo, mas pela consulta ao grande público ou através de seus representantes, eleitos para isso.
O art. 1.726 do Código Civil diz que uma união estável pode ser convertida em casamento mediante requerimento ao juiz. Ora, pelo que o STF decidiu, foi imposto, judicialmente, o casamento gay. Até os ativistas gays, os moderados, claro, consignam o cuidado de não se chamar de casamento a união civil. Os ativistas não moderados, por sua vez, queriam exatamente isso: enfiar goela abaixo da maioria uma redefinição do conceito de casamento. Não se pode, nem se deve, impedir que um casal homossexual viva junto e tenha os direitos que um casal heterossexual tem, mas também não se pode impor um novo conceito que a maioria recusa.
Abriu-se, em uma decisão com intenção meritória, o precedente de o STF poder substituir totalmente o Congresso. Salvo expressa determinação da Constituição para que o faça, quando o Congresso não legisla sobre um tema, isso significa que ele não quer fazê-lo, pois se quisesse o teria feito. Há um período de negociação, existem trâmites, existem protocolos. O STF não pode simplesmente legislar em seu lugar, tomar as rédeas do processo legislativo. Mas, que o Congresso e as maiorias façam sua mea culpa em não levar adiante a solução para esse assunto.
O STF deve proteger as minorias, mas não tem legitimidade para ir além da Constituição e profanar a vontade da maioria conforme cristalizada na Constituição. O que houve está muito perto de criar, pelas mãos do STF, uma ditadura das minorias, ou uma ditadura de juízes. O STF é o último intérprete da Constituição, e não o último a maculá-la. Ou talvez o primeiro, se não abdicar de ignorar que algumas coisas só os representantes eleitos podem fazer.




Precisamos caminhar contra a homofobia e o preconceito. E também precisamos lembrar que cresce em nosso meio uma nova modalidade de preconceito e discriminação: a teofobia, a crençafobia e a fobia contra a opinião diferente – o que já vimos historicamente que não leva a bons resultados.




O PLC 122, em sua mais nova emenda, quer deixar ao movimento gay o direito de usar a mídia para defender seus postulados, mas nega igual direito aos religiosos. Ou seja, hoje, já se defende abertamente o desrespeito ao direito de opinião, de expressão e de liberdade religiosa. Isso é uma ditadura da minoria! Isso é, simplesmente, inverter a mão do preconceito, é querer criar guetos para os religiosos católicos, protestantes, judeus e muçulmanos (e quase todas as outras religiões que ocupam o planeta) que consideram a homossexualidade um pecado. Sendo ou não pecado, as pessoas têm o direito de seguir suas religiões e expressar suas opiniões a respeito de suas crenças.




E se o STF entender que o direito de opinião e expressão não é bem assim? Isso já é preocupante, porque o precedente acaba de ser aberto. E se o STF quiser, assim como adentrou em atribuições do Congresso, adentrar naquilo que cada religião deve ou não professar?




O fato é que as melhores decisões podem carregar consigo o vírus das maiores truculências. Boa em reconhecer a necessidade de retirar do limbo os casais homossexuais, a decisão errou na medida. Quanto ao mérito da questão, os religiosos e ativistas moderados deveriam retomar o comando a fim de que a sociedade brasileira possa conviver em harmonia dentro de nossa diversidade.




William Douglas é juiz federal , mestre em Direito,
especialista em políticas públicas e governo.
www.williamdouglas.com.br

terça-feira, 10 de maio de 2011

Os Mistérios do Amor Conjugal em Cântares



Por Esdras Costa Bentho












"Que ele me beije com os beijos da sua boca!" (1.2)




Cantares é a obra mais romântica e simbólica da literatura universal. Seus símbolos ilustram o amor em uma profusão que o leitor fugaz não percebe. Trata-se de uma óde atemporal, que representa o amor entre um homem e uma mulher do modo mais sagrado e belo.




No centro de Cantares está o amor que se exprime com naturalidade, simplicidade, pureza e calor a sua paixão e intimidade: “gritos de alegria, a voz do noivo e a voz da noiva” (Jr 7.34; 16.9; 25.10). Justamente por causa da absoluta universalidade dessa experiência, os símbolos usados em Cantares são constantes e logo perceptíveis, pelo menos a nível global, embora nos detalhes estejam carregados de conotações orientais, exóticas e, às vezes, exasperadas.




Amor



Cantares é um encontro com o amor. Trata-se de um verdadeiro minivocabulário de palavras repetidas dezenas de vezes, porque o enamorado nunca se cansa de dizer à sua mulher: Tu és fascinante (na’wah); és encantadora (iafah); minha amada (‘ahabah); minha irmã (‘ahotî); minha esposa (kallah); meu tesouro (ra ‘iatî); amor de minha alma (‘ahabah nafsî), minha única (6.9). Cantares convida o homem moderno a expressar sem medo ou receio o seu mais profundo amor à mulher amada. Desperta o amásio a expressar as mais significativas e belas frases de amor. A palavra é geradora de sentimentos e fertilizante para o coração.




E para a mulher, o esposo é sempre dodî, “o meu amado”. É assim que o coração é arrebatado (4.9), a paixão é fremente (7.11; 8.7), a delícia (5.17) cancela a vergonha (8.1,7), o anelo inconsciente (6.12) gera contemplação (7.1) e predileção (6.9). Há quase um desmaio de amor (2.5), numa espécie de doença incurável (2.5; 5.8), num sono estático (2.7; 3.5; 5.2; 7.10; 8.4,5), numa embriaguez (5.14), num desfalecimento incitante (5.6). Mas também há o medo que perturba (6.5), há a ausência insuportável (5.6), os pesadelos noturnos (3.8). Mas tudo se esvaece e apenas ouve-se aquela voz doce e suave (2.14). Então tudo volta a ser triunfo dos sentidos numa espécie de paraíso do olfato e do paladar: os frutos do amor são saborosos (2.3; 4.16; 7.9,14), são mel, néctar, leite (4.11; 5.1,12), doçura para o paladar (5.17) [1].




O amor é comparado a cheiros e sabores. Na carreira diária, às vezes, nos esquecemos do estro que nos torna humanos. Colocamos os nossos sentidos reféns do vil metal, enquanto eles são indispensáveis ao conhecimento do outro. Não se ama sem odores e cheiros. O amásio conhece o doce cheiro de sua amada e o paladar de seus lábios. O amor demonstrado na obra eleva o amor a um estado de completo arrebatamento. O poema recomenda aos amásios a sentirem o cheiro e o sabor um do outro. É um convite ao verdadeiro encontro! Nesse amor sublime, nada espiritual e muito menos mundano, os amásios são convidados a viverem com toda intensidade a sua plena humanidade e conjunção carnal nos laços do matrimônio.




Corpo



Não existe, de fato, um livro bíblico que siga tão intensamente a realidade do corpo em todos os seus meandros e segredos e em toda a sua aparência. Vemos o rosto (2.14; 5.2,11; 7.6; 8.3) com a boca aberta ao beijo (1,2; 4.3; 8.1); e à voz (2.8,14; 5.2; 8.12), com os lábios frementes (4.3,11; 5.13; 7.10), com a língua (4.11), com os dentes cândidos (4.2; 5.12; 6.6), com o paladar que deseja saborear (5.16; 7.10); e o nariz atraído pelos perfumes (7.9), com as faces 1.10; 4.3; 5.13; 6.7), com os olhos (1.15; 4.11; 5.2,11; 6.5; 7.5; 8.10) que muito se movem e piscam (2.9) ou ternos (4.9), com os cabelos e as tranças (4.1,6; 5.10), com o pescoço harmonioso (1.10; 4.4; 7.5).




Nada mais óbvio do que afirmar que cada detalhe da amada ou do amado não passa despercebido ao verdadeiro amor. Em uma cultura que aprendeu a ditar suas regras estéticas e seus gostos artesanais à moda Michelangelo, o ser (Dasein) desaprende a ver as qualidades intrínsecas da própria fisionomia humana, irretocável. Não importa o formato do nariz, o importante é usá-lo para cheirar os mais preciosos odores do cônjuge. Pouca importância tem a densidade dos lábios, o essencial é saborear aquilo que o amor reservou para os amantes. A cor dos olhos não cativa tanto quanto o seu brilho. Quem ama encontra suas próprias razões para amar, apesar de tudo.




Depois, eis o corpo ereto (2.9; 7.8) que se ergue solene (2.10,13; 3.2; 5.5), que aperta com força o ser amado (3.4), que abraça (2.6; 8.3,6), que dança de júbilo (2.8), mas que também é plantado sobre as pernas e sobre os pés (5.3; 7.2). [2] O corpo é visto em Cantares como um cântaro cheio de surpresas e venturas.O amor, sentimento difícil de ser descrito em palavras, tem através das imagens corpóreas do Cântico a sua mais elevada expressão e propósito. Se ama verdadeiramente quando se entrega. Tentaram em vão, Orígenes e São Bernardo, explicar as imagens corporais como símbolos da virtude cristã, ou sabedoria e ciência. Pobres teólogos mortais...que se negam a amar e a reconhecer que o amor entre cônjuges é uma dádiva da criação divina!




Observa-se também o esplendor dos seios (1.13; 4.5; 7.4,8,9; 8.8,10), a perfeição dos quadris (7.2), da bacia (7.3), do ventre (5.14; 7.3). Os seios com todo o seu esplendor é o repouso do abraço apaixonado! Um dado muito interessante relata em 7.4: os seios como crias gêmeas da gazela. Nada mais risonho, infantil e dócil. Nego-me a aceitar a interpretação de que os dois seios são as colinas de Ebal e Gerizin. Trata-se da mais eficaz sedução da parte da amada, que desejam os intérpretes reduzir a duas colinas vetustas e de valor espiritualmente simbólico. Ao movimentar freneticamente os quadris, os seios movem-se rapidamente, lembrando ao amado os gamos gêmeos saltitando pelos bosques.




Eis ainda, acima de tudo o coração que, na linguagem bíblica é sinônimo de consciência, inteligência e amor (5.4; 8.6). Nessa luz, o conhecimento recíproco dos enamorados não acontece só através da mente, mas também da paixão, dos sentidos, da ação e da alegria que se completa na plena realização sexual do casal: Meu bem amado põe a mão pela fenda e minhas entranhas estremecem. Não precisamos "abrir o verbo" para não corar os mais tímidos! Os símbolos "mão" e "fenda", desde a Antiguidade representavam os órgãos sexuais masculino e feminino, e no mínimo, aqui, as carícias entre os cônjuges. A destreza do amado é comparada em 5.14 à "mãos de ouro torneadas, cobertas de pedras preciosas". Cântares convida o casal a viver a vida sexual em sua completude, sem receios ou moralismo hipócrita que impede a felicidade dos cônjuges. Viva plenamente!




Perfumes



Cantares é permeado por perfumes (1.3,12ss; 2.13; 3.6; 4.10-11; 5.13; 7.9,14): Nardo (1.12; 4.13), cipreste (1.14; 4.13); bálsamo (2.17; 5.1,13; 6.2; 8.14), essência exótica (6.6; 4.14), incenso (3.6), açafrão, canela e cinamomo (4.14). Existe até mesmo um “monte da mirra”, uma “colina do incenso” (4.6) e os “montes do bálsamo” (8.14). A suavidade do vinho é a comparação mais espontânea para exprimir a embriaguez e doçura do amor (2.4; 4.10; 5.1; 7.3,10; 8.2). Nada melhor do que comparar o amor ao cheiro exótico da canela, que se supõe poderes afrodisíacos! As plantas odoríficas estão plantadas no "jardim fechado", figura que destaca o mistério, o espanto e assombro que é o amor de uma mulher com o seu marido. Ela é um jardim fechado em cujo canteiro estão plantados diversas ervas aromáticas que jamais poderiam crescer juntas. Esse jardim fechado também é um belo e delicioso pomar, cujas frutas saborosas são para a degustação dos amados. É um paraíso de romãs (4.13), um pomar das delícias que só o encontro assombroso entre um homem e uma mulher poderia desfrutar. O jardim das delícias é carregado com o cheiro do amor e dos sentimentos que se perpetuam e se fixam com os odores das plantas. Trata-se, na verdade, de um convite ao amor, comparado a pomares e ervas aromáticas. Um mistério que somente os que amaram intensamente são capazes de revelar.




Objetos Preciosos



A vista e o tato são envolvidos, seja por causa do contato físico entre os dois corpos, seja porque o esplendor do amor é pintado segundo as impressões produzidas por deslumbrantes objetos preciosos: Ouro e prata (1.11; 3.10; 5.11,13,15; 8.9,11,12), pérolas e brincos (1.10,11; 4.9), coroas (3.11), selos (8.6), taças (7.3), madeira nobre do Líbano (3.9); bordados (3.10), púrpura (3.10; 4.3; 7.6), safiras (5.14), marfim cinzelado (5.14; 7.5).




Jardim



Sobre o jardim brilha o sol (1.6; 6.10) e se reflete a lua (6.10). Sucedem-se as auroras e as noites (6.10; 7.12,13), descem as sombras (4.6), sopram o aquilão e o austro (4.16), sopra a brisa (2.17; 4.6), levantam-se colunas de fumaça (3.6), gotejam as chuvas e o orvalho (2.11; 5.2). O jardim “fechado” (4.12) é a figura do “eu feminino”, a “inviolabilidade da pessoa”, um “mistério inatingível contido no corpo da mulher e do seu parceiro”. Salomão salienta que a amada é exclusivamente dele, como um jardim que pertence unicamente ao seu dono, sendo inacessível a todos. Também os poços e fontes eram, às vezes, selados para preservar água, coisa mais do que preciosa no oriente, evitando que outros a tomassem.




Finalmente, só poderíamos terminar com o verso mais célebre dos Cânticos dos Cânticos:



“... azzah kammawet ‘ ahabah..”



“forte como a morte é o amor”.






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Notas[1,2] RAVASI, Gianfranco. Cântico dos Cânticos: pequeno comentário bíblico. São Paulo: Paulinas, 1988.